“EU NÃO DEVERIA SER ASSIM” – LIDANDO COM COMPARAÇÕES E INFERIORIDADE

A linguagem nos proporciona algo fantástico que é a possibilidade de interagirmos com as outras pessoas. Porém, por sua estrutura, a mesma linguagem pode acabar nos atrapalhando ou confundindo. Neste texto, gostaria de comentar um aspecto dessa confusão: a comparação com as outras pessoas e a ideia de que deveríamos ser melhores ou diferentes do que somos.

ADJETIVAÇÃO

Qualquer adjetivo é uma comparação. Se eu digo que sou alto, porque eu meço 1 metro e 80 é porque estou comparando com uma pessoa que mede menos. Se eu entrar em uma partida de basquete, certamente sentirei que sou baixo, dada a estatura dos jogadores que gira em torno dos 2 metros.

Ao adjetivar, estamos utilizando uma parte da linguagem normalmente ligada às descrições. Do ponto de vista da psicologia, a adjetivação e a comparação estão fundadas na relação eu e o outro. Um livro que ficou muito famoso é “Eu estou ok – você está ok”. Nele, encontramos a ideia de alguns padrões subjetivos.

1. Eu não estou ok e você não está ok
2. Eu não estou ok e você está ok
3. Eu estou ok e você não está ok
4. Eu estou ok e você está ok

A palavra ok aqui pode ser substituída por adjetivos: eu estou bonito (ou não) e você está bonito ou bonita (ou não). A ideia é que aprendemos uma destas posições subjetivas logo na infância e levamos o padrão para a vida.

No primeiro caso, eu não estou ok nem você, há uma relação negativa, em que os dois do termo eu-outro são avaliados pejorativamente. No segundo, o outro ou outra é valorizado ou valorizada e o eu desvalorizado, o contrario do terceiro, no qual o eu é valorizado em detrimento da outra pessoa.

A única posição subjetiva saudável é a última. Nesta, a própria ideia de comparar para se sentir superior ou inferior é deixada de lado. Para que eu esteja bem você não precisa estar mal. Para que eu me sinta bonito você não precisa estar feio. E a lista de adjetivos é infinita aqui, o central é a não necessidade de ter que depreciar a outra pessoa para se sentir melhor, ou se colocar em uma posição inferior, de vítima.

EU NÃO DEVERIA SER ASSIM

Quando ainda há comparação, é comum encontrar nos pensamento de que “eu deveria ser assim” ou “eu deveria ser diferente” ou “eu deveria ser melhor”. Querer melhorar ou querer evoluir ou querer se desenvolver não é o problema; o problema reside no fato de que isso acaba sendo como um jogo mental. No final das contas é um ideal inatingível.

Por exemplo, um sujeito que acredita que deveria ser melhor trabalhando ou ganhando mais. Não há limites para se trabalhar mais eu ganhar mais, portanto, isso pode levar a pessoa a ser viciada em trabalho (workaholic) ou excessivamente materialista.

De novo, querer se desenvolver não é um problema. O problema reside em colocar a felicidade, o contentamento e a alegria em um suposto futuro, um futuro que nunca chega já que, ao atingir uma meta, aparece uma outra maior.

Como disse, é como um jogo mental. “Eu não deveria ser assim”. Quando, e somente quando, for diferente e melhor, serei feliz. Ora, esse é um ciclo sem fim. É preciso perceber esse jogo – que os outros ajudam a manter, talvez, e que alimentamos – e entender que só de abandonar a necessidade de ter que ser diferente já traz alívio e, consequentemente, mais paz.

EU OBSERVO QUE ESTOU PENSANDO

Uma técnica simples, de desfusão cognitiva, pode ajudar no distanciamento de tais pensamentos de comparação, de “eu deveria”.

Em geral,  nos fundimos com os nossos pensamentos, ou seja, os pensamentos surgem e já acreditamos neles. Por exemplo, pode surgir o pensamento “hoje o dia está difícil”.

É só um pensamento, mas se nos fundirmos com esse pensamento, vamos acreditar que é uma verdade absoluta. Por isso, podemos fazer a sequência de 3 passos.

  1. Hoje o dia está difícil
  2. Eu estou pensando: “hoje o dia está difícil”
  3. Eu observo – Eu estou pensando: “hoje o dia está difícil”

No segundo passo, já nos afastamos um pouco, como se o pensamento fosse um balão como nos desenhos em quadrinhos. No terceiro passo, observamos a nós mesmos tendo o pensamento. E de tal forma que percebemos que um pensamento é só um pensamento.

CONCLUSÃO

Não é possível abandonar a linguagem, já que a linguagem é fundamental para a nossa vida. Mas da mesma maneira que a linguagem é útil, ela também pode nos colocar em certos jogos pouco agradáveis. Um dos principais é a comparação com as outras pessoas e a ideia de que deveríamos ser melhores.

A comparação leva inevitavelmente para o complexo de inferioridade ou superioridade (ambos causam sofrimento).

Na terminologia da análise transacional, a única posição válida e saudável é aquela em que a comparação é substituída por “eu estou ok e você está ok”. Afinal, você não precisa estar mal para eu estar bem. Você não precisa perder para eu ganhar. No fundo, cada um é como é, possui a sua individualidade.

Contudo, é um longo processo – e que necessita de uma constante consciência e auto-observação – para escapar destas armadilhas linguísticas que tanto sofrimento causam.

 

 

Autor:  Professor Felipe de Souza

Fonte: http://www.psicologiamsn.com/2016/03/eu-nao-deveria-ser-assim-lidando-com-comparacoes-e-inferioridade.html

Anúncios