Maconha te deixa burro?

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Publicado em 27.04.2016

Se alguém te pedir para imaginar um maconheiro, que figura te vem à cabeça? Um cara meio lento, desmotivado, com os olhos vermelhos e cara de bobo?

Mas o que a ciência diz sobre esse estereótipo? Será que quem fuma marijuana fica mesmo lento e burro?

O júri ainda não decidiu

A pesquisa nessa área não é clara. Estudos com animais e digitalizações do cérebro humano dão motivo para preocupação: eles dizem que a maconha é psicoativa, e pode causar alterações cerebrais estruturais.

Nas pessoas, os efeitos cognitivos da erva parecem durar, pelo menos, várias semanas após o uso, muito tempo depois de a pessoa deixar de se sentir intoxicada.

No entanto, apenas alguns estudos têm revelado informações sobre se a maconha de fato diminui o QI a longo prazo, e diferentes pesquisas mostraram resultados conflitantes.

Droga popular

O uso recreativo da maconha é legal em alguns lugares do mundo, famosamente na Holanda, por exemplo, e em quatro estados dos EUA (Alasca, Colorado, Oregon e Washington). O uso de maconha medicinal é ainda mais generalizado.

Apesar de ser uma droga popular, pouca pesquisa tem sido feita sobre a maconha, em grande parte por causa da dificuldade de obtenção da substância para estudo. Nos EUA, por exemplo, houve cerca de três vezes mais pesquisas em animais com cocaína do que maconha. A Administração de Drogas e Alimentos do país tem melhorado seu regulamento, no entanto, de forma que mais (e melhores) investigações devem surgir em breve.

Por enquanto, porém, a resposta para a pergunta: “Será que maconha deixa as pessoas burras?” ainda é mais complicada do que parece.

A curto prazo

Estudos em animais sugerem que a maconha não é necessariamente boa para o cérebro. Os ratos expostos ao seu ingrediente ativo, tetraidrocanabinol (THC), experimentaram alterações cerebrais e comprometimento cognitivo.

Além disso, estudos de curto prazo com seres humanos apontam claramente para impactos na memória, aprendizado e atenção, mesmo em um usuário sóbrio. Um estudo de 1996 publicado no Journal of the American Medical Association, por exemplo, descobriu que os usuários diários de maconha iam pior em testes de atenção e função executiva (como planejamento e autocontrole) do que pessoas que tinham fumado maconha apenas uma vez no mês anterior, mesmo que ambos os grupos abstiveram-se da droga durante pelo menos 19 horas antes do teste.

Os efeitos da maconha podem persistir pelo menos 20 dias depois de uma pessoa fumar, de acordo com uma revisão de 2011 sobre o tema. Mas a questão para a qual ainda não temos uma resposta clara é se ela prejudica o cérebro no longo prazo.

Usuários x não usuários

Estudos de digitalização cerebral em humanos sugerem que a maconha pode estar ligada a mudanças cerebrais anatômicas, como encolhimento da amígdala, uma região do cérebro que processa emoções, recompensa e medo.

Em algumas pessoas com vulnerabilidade genética, tais mudanças cerebrais podem ser suficientes para desencadear esquizofrenia, que é mais comum em usuários de maconha. No entanto, pode ser que os genes em questão podem levar as pessoas a tanto fumar mais maconha quanto ser mais propensa a esquizofrenia, em vez de causar diretamente a ligação entre a droga e psicose.

E esse é o problema com a tentativa de desvendar os efeitos dessa substância: pessoas que usam a droga são provavelmente diferentes das pessoas que não usam. Assim, os estudos que comparam fumantes com não fumantes muitas vezes não podem dizer se os resultados vieram de algum outro fator que explica a diferença entre eles.

Sim

Um estudo que tentou esclarecer a questão foi publicado na revista Neurotoxicology and Teratology em 2005. Ele descobriu que ser um usuário regular de marijuana leva a déficits de memória, QI, velocidade de processamento e memória.

No entanto, as pessoas que tinham usado a droga no passado, mas que haviam parado não mostraram efeitos a longo prazo três meses após parar de fumar. E outro problema é que esse estudo acompanhou 113 adolescentes que usaram maconha durante uma média de apenas dois anos.

Um estudo maior publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences em agosto de 2012 acompanhou 1.037 neozelandeses do nascimento até os 38 anos de idade, avaliando a sua função cognitiva aos 13 anos (antes de qualquer participante começar a usar maconha) e novamente na idade de 38. Os participantes relataram o uso da droga aos 18 anos, 21, 26, 32 e 38, dando a pesquisadores uma oportunidade de determinar se os efeitos cognitivos diferiam dependendo de quando uma pessoa começou a usar maconha e quanto tempo ela continuou a usá-lo.

Esse estudo concluiu que houve declínios globais na cognição, incluindo uma queda média no QI de cerca de 6 pontos, em pessoas que fumavam maconha. Os maiores efeitos foram observados em usuários persistentes – pessoas que relataram ter consumido maconha em pelo menos três entrevistas entre as idades de 18 e 38.

Em particular, os déficits não foram vistos em pessoas que começaram a usar maconha quando adultos, mas eram fortes em pessoas que pegaram o hábito quando adolescentes.

Nem tanto

Nem todas as pesquisas chegaram a resultados semelhantes, no entanto. Um estudo publicado no Journal of Psychopharmacology em janeiro de 2016 acompanhou 2.235 adolescentes britânicos, sendo que cerca de um quarto deles tinha experimentado maconha pelo menos uma vez com até 15 anos, e não encontrou nenhuma ligação entre a exposição a maconha e QI ou desempenho educacional, aos 16 anos.

O estudo foi baseado em um curto espaço de tempo, mas mesmo investigações mais duradouras tiveram resultados conflitantes. Em fevereiro de 2016, pesquisadores publicaram os dados de um estudo com usuários e não usuários na meia-idade. Eles analisaram memória verbal, velocidade de processamento e função executiva (planejamento e autocontrole) em 3.385 pessoas. Cerca de 84% (2852) tinham usado maconha em algum momento, mas apenas 11% (392) tinham usado na meia-idade.

Após os pesquisadores controlarem para outros fatores que poderiam afetar os resultados, tais como o uso de outras drogas e demografia, o uso de maconha cumulativa foi ligado a pior memória verbal, mas não a declínios na função executiva ou velocidade de processamento.

Estudo com gêmeos

Apesar de todos estes estudos controlarem para fatores que podiam influenciar a cognição – demografia, uso de outras drogas, educação -, essas estatísticas não são uma ciência exata.

Assim, uma pesquisa decidiu trabalhar com 3.000 gêmeos idênticos, o que significa que tinham a mesma composição genética e o mesmo ambiente doméstico, para comparar melhor usuários com não usuários.

Os pares de gêmeos tinham sido submetidos a testes de inteligência entre as idades de 9 e 12 (antes de usar maconha), e entre as idades de 17 e 20 (depois de algum ter começado a usar a droga).

A análise revelou que, em geral, os usuários de maconha eram de fato cognitivamente piores do que os gêmeos não usuários no final da adolescência. Mas esses usuários já eram piores antes de começarem a usar maconha. Assim, não foi o uso de maconha que causou as diferenças entre o grupo de usuários e o de não usuários. Na realidade, algum fator inexplorado pode ser o que determina se alguém fuma maconha ou não.

No futuro

Os pesquisadores não acham que a maconha é totalmente inofensiva. Mas pode ser que, o quer que ela impacte, não é tão importante diante dos fatores ambientais que causaram seu uso em primeiro lugar.

“Eu acho que a verdadeira questão acaba sendo: ‘Eu deveria estar mais preocupado sobre como a maconha está afetando o cérebro, ou eu deveria estar mais preocupado com as coisas que levam uma pessoa a procurar refúgio na maconha?’”, disse Nick Jackson, estatístico da Universidade do Sul da Califórnia (EUA) e autor de estudos sobre o uso da maconha.

A pesquisa nesta área é muito incipiente para tirar conclusões definitivas sobre se o uso da maconha é seguro ou não ao longo do tempo. Mas podemos ter melhores respostas em breve. Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA vão lançar um estudo longitudinal com 10.000 crianças para rastrear os efeitos do abuso de substâncias, incluindo a exposição à marijuana, ao longo do tempo. Ele vai incluir testes neuropsicológicos, bem como digitalização do cérebro, para aprofundar estas questões.

Como fatores mutáveis podem estar envolvidos, tais como a concentração de THC na maconha, provavelmente ainda pode levar um bom tempo até que tenhamos alguma certeza, porém. [LiveScience]