O paradoxo do tempo

por Frederico Mattos

Obs.: o artigo de hoje está fora do formato usual, sem uma pergunta. Escolhemos fazer assim pela temática ser especialmente boa. Na próxima semana, voltamos à programação normal. Quer mandar uma pergunta para o ID? É só seguir a instrução mais fácil do mundo, lá no final do texto.

Você já percebeu que a noção temporal de cada pessoa é muito particular? Comece a reparar como elas lidam com o gerenciamento do próprio tempo e perceberá algo interessante: ele não é o mesmo para todos, apesar das mesmas horas no relógio.

Essa noção psicológica do tempo é tão impactante que levou o psicólogo americano Phillip Zimbardo, conhecido pelo experimento com jovens estudantes em uma penitenciária simulada, a estudar em profundidade a influência da noção temporal em nossas vidas. O resultado de seus achados está descrito minuciosamente no livro O paradoxo do tempo.

Para Zimbardo, nem todos vivem com suas mentes no presente. Soa óbvio, sempre nos flagramos com a cabeça distante, não? Porém, o buraco é mais embaixo. A sensação temporal vivida impacta diretamente nossas decisões, ações do cotidiano e a maneira pela qual nos relacionamos com os outros.

Sabe “De volta para o futuro”? É isso, com nossas mentes

Outro a notar importância do tempo na pós-modernidade foi o italiano Domenico De Masi ao afirmar que o tempo, juntamente com o espaço, é um de nossos bens mais preciosos.

Ele observou como grande parte dos serviços prestados por profissionais tem a função de acelerar a execução de uma tarefa, como se fossem encurtadores de tempo. Um advogado usa seus assistentes para “zipar” seu tempo de trabalho jurídico, assim como um chef de cozinha faria o mesmo com sua equipe.

Vamos trabalhar com alguns exemplos de relações distintas com o tempo.

Júlio

Ele tem compromisso às 17 horas. Ou melhor, tinha. É daqueles sujeitos com a constante ideia de que vai chegar à tempo, mesmo saindo sempre dez minutos atrasado. Sua sensação de poder o faz imaginar, a cada vez que entra no carro, ser capaz de abrir o trânsito assim como Moisés abriu o mar vermelho.

Como resultado, se atrasa. Marca compromissos que se encavalam e vive pedindo desculpas. Assim, perde credibilidade com os amigos, parentes e clientes. Seu chefe pensa duas vezes antes de cogitá-lo para uma promoção. A namorada já está ressentida pelas inúmeras ocasiões especiais nas quais ele se atrasou, a fazendo sentir menos importante.

Regina

Ela não entende como seu dinheiro nunca paga as contas do mês, mesmo que faça as contas “direitinho”. Seu cartão está sempre estourado. Não sabe ao certo quanto ganha ou gasta. Em sua mente, as coisas se resolverão “com toda certeza do mundo!”.

Seu guarda-roupas está lotado de peças compradas para ocasiões que nunca surgem. Seu peso está além do desejável, mas tudo bem. Amanhã ela começa a academia que vem pagando há cinco meses, sem ter ido uma única vez.

Sua dívida é resultado da sensação perene de que amanhã vai receber um aumento; ou que seu décimo terceiro vá cair na conta para cobrir os rombos. Tudo amanhã.

Robson

Esse é um cara meio nostálgico, daqueles que sente saudades de Woodstock mesmo tendo nascido em 79. Cultiva hábitos retrôs, se delicia com discos de vinil e tem convicção de que os tempos modernos são terríveis. Em sua opinião, boas mesmo eram as décadas de 60 ou 70, nas quais tudo era mais vivo.

Segundo ele, sua infância foi um mar de acontecimentos desastrosos e nada que digam em contrário é capaz de fazê-lo recuar dessa crença. Não faz grandes planos para o futuro e tende a desconfiar dos outros. No campo afetivo, tem medo de que desilusões amorosas voltem a assombrá-lo.

* * *

Seria engraçado, não fosse trágico, reparar que conhecemos pessoas assim ou, ainda, nos reconhecemos.

Para ajudar as pessoas, Philip Zimbardo e John Boyde estruturaram uma “tipologia” temporal com seis perfis de administração psicológica do tempo. Em cada um, nota-se reações específicas ao lidar com aspectos como compromissos sociais, gerenciamento financeiro, tomada de decisão, maneira de se relacionar amorosamente e até mesmo visão de mundo.

Zimbardo entende que o passado é como você vê o ontem pelas lentes de hoje. O presente como o instante onde tudo é real. E o futuro como sua interpretação do amanhã pelas lentes do momento atual.

Portanto, passado e futuro são perspectivas do hoje – ainda que ambos sejam compostos daquilo que foi um dia percebido como “hoje” ou daquilo que assim o será.

Vamos entender melhor essa tipologia.

1. Passado positivo

“Isso sim é que é cinema! Não esse lixo todo que fazem hoje em dia!”

Esse perfil retrata pessoas mais fixadas na sensação interna de que o momento mais especial de suas vidas… já foi. A infância ou adolescência tomam suas fantasias de assalto com frequência. Só de lembrar do cheiro de bolo da vovó tem borboletas de felicidade pelo estômago. Adora filmes clássicos, se alegra com músicas antigas e cultua hábitos tradicionais, até mesmo conservadores.

Seu lema é a frase do filósofo Nietzsche “o que não mata, me fortalece”, pois aprecia tirar grandes lições do que lhe acontece – à moda de Anne Frank ou Poliana. Os acontecimentos parecem ganhar um brilho a mais depois que passaram. O gosto saboroso surge com a perspectiva póstuma.

O ex (momento, parceiro, emprego) é secretamente cultuado de forma mais revitalizante do que o atual.

2. Passado negativo

“Esse Capitão Nascimento é um perigo pro nosso país! Estamos a um passo de voltar aos tempos da ditadura. Meu deus, o que vai ser de todos nós!”

Se houve alguma catástrofe, conflito, agravo, abuso ou derrocada na sua vida pregressa, essa pessoa as enaltecem como se fossem traumas insuperáveis. Ainda que não tenha de fato vivido algo tão pesado, traz consigo o sentimento de que sua história não foi nada fácil.

Alguns apelam ao culpar carmas de vida passada ou dramas intra-uterinos de sua mãe. Não importa, impera a perspectiva do passado como eterna névoa escura em sua vida.

Naturalmente, tende a ser uma pessoa menos motivada, entusiasmada ou confiante. Tem certo medo de um suposto retorno iminente de desastres do passado.

O ressentimento predomina em sua atmosfera mental e é capaz de guardar mágoas por qualquer incidente, mesmo os menores. Sua hipersensibilidade cria um clima bem ruim nas relações. Não raro é acometida por surtos de mal humor, reclamação ou tédio.

Sua pergunta essencial é “o que eu deveria ter feito de diferente em minha vida?”

3. Presente hedonista

“Não, nem lembro o que comi no almoço de ontem. O que eu vou fazer amanhã? Sei lá. Só sei é que hoje vai ser o melhor dia das nossas vidas!”

Pessoa que leva até as últimas consequências sua ânsia em aproveitar o momento. Ferris Bueller do filme Curtindo a vida adoidado seria um bom representante, pois não existe um ontem e um amanhã melhores do que o aqui e agora.

Com essa perspectiva temporal, nunca sente haver um problema gritante – exceto quando não mais for tão jovem, bonita ou poderosa quanto gostaria.

Enquanto está na crista da onda, você não verá essa pessoa cabisbaixa. Ela será entusiasta de todas as iniciativas, mas poucas vezes atravessará as tempestades entre o meio do caminho e a conclusão. Financeiramente, acha que dará um jeito em tudo e guarda poucas reservas.

Ela não pode faltar na festa, mesmo que depois acabe bêbado e causando incomodo, pois estará lá para criar o clima de divertimento necessário. Suas relações tendem a ser superficiais e, de forma geral, volúveis e sem muito sentido. Ela é ótimo em primeiros encontros e péssima quando a história avança, já que não consegue estabelecer laços ou cumprir promessas.

Com o tempo, vai perceber que mudou tantas vezes de opinião, rumos e parceiros que não tem nenhuma referência.

Seu lema é carpe diem, custe o que custar e a quem custar – e não costuma ser ela quem paga o preço. O futuro não existe e o passado não é muito importante.

4. Presente fatalista

“Pois é, amigo, o mundo é uma merda e por mais que tentemos melhorá-lo, ele continuará sendo uma merda”

Essa pessoa pode até parecer cética, apática ou fria, mas em sua percepção, está apenas sendo realista. Gosta de falas como “o que tiver que ser, será; não importa o que eu faça”. Não se sente proprietária de sua vida. Age de maneira fragmentada, sem muita noção de causalidade ou responsabilidade.

Sua perspectiva de vida está enterrada no aqui e agora de modo negativo e não vê possibilidades ou alternativas de escape. A pessoa que funciona pelo presente fatalista tem uma visão engessada da realidade. As coisas são estáticas, fechadas em si e concretas. Qualquer tipo de mudança, evolução, melhora é considerada fantasia ou bobagem.

Se uma garota é apresentada a um homem fatalista, pode ser descartada no ato, sob o pretexto de que ele não espera nada dando certo (ainda que jamais confesse isso com essas palavras).

Olhando de fora, é alguém difícil de engolir e que insiste em olhar a realidade como algo sólido, imutável. É bem comum que acabe utilizando jogos, drogas e compulsões variadas para administrar a sensação de tédio entremeada por uma vida sem grandes realizações. Afinal, quem contrataria ou  namoraria com alguém assim tão “cabeça dura”?

Curiosamente, essa postura pessimista realimenta o ciclo de de realizações fracassadas. Como numa profecia autorrealizada.

5. Futurista

“Ah… agora sim as coisas vão acontecer do jei-ti-nho que eu quero. Que beleza!”

Pessoas vivendo dentro desse fluxo temporal medem a realidade presente por seus potenciais desdobramentos. Buscam implicações positivas futuras, a todo momento. Vivem torturadas por cada decisão, como se precisassem calcular sua conjuntura psicológico/social/financeira/profissional/existencial a cada passo. Para assim ter o melhor amanhã possível.

Se conhece um pretendente, só consegue dar o passo seguinte se tiver certeza de que “há futuro”. Mudanças profissionais necessitam, também, garantias de melhora.

Esse apego a previsões constantes costumam tornar a pessoa apreensiva, insegura e ansiosa. Navegar por um mundo sem garantias é um tormento sem fim.

Seu modus operandi? “Quando quero algo, estabeleço metas e avalio os meios específicos para alcançá-las”. E alcança mesmo, pois costuma concluir aquilo que começa, atingindo objetivos financeiros e profissionais com bastante precisão.

Como ela não quer deixar nada vago ou com pontas soltas, pode parecer enfadonha e excessivamente metódica, cheia de prazos. Qualquer coisa que fuja do seu estrito controle e cause surpresas indesejáveis (quase tudo) abala seu sistema de seguranças.

Diversão? Sim, desde que não cause câncer no pâncreas/fígado/pulmão/estômago.

A vantagem é que você pode contar com ela para o que precisar, basta colocar tudo na planilha.

6. Futuro transcendente

“O que as pessoas que virão estão prestes a viver é muito, mas muito mais importante do que tudo o que temos agora”

Sabe aquela pessoa que não parece ser desse mundo? Se perguntada sobre as realidades do momento, irá responder com um olhar transcedental, esotérico – em sua perspectiva, retrato da maturidade diante das complexidades da existência.

Costumam ser sujeitos em busca de maior compreensão da realidade, em suas múltiplas camadas.

Anseiam deixar um legado ao mundo, pensando nas gerações futuras.

Lidam bem com revezes, já que têm o olhar lançado ao infinito. O que são algumas pequenas frustrações hoje, diante da eternidade?

As causas ecológicas, espirituais e humanísticas são abraçadas com facilidade. Não vêem problema ao dedicar seu tempo a algo cujos frutos podem não colher.

Podem viver como ascetas, um tanto afastados de prazeres como fama, sucesso, dinheiro e sexo. O lado terrível dessa perspectiva temporal é seu enorme poder em movimentar interesses nocivos ligados a ideias de seitas ou grupos violentos.

* * *

Você, creio, se identificou com facetas de vários perfis. Nenhum de nós vive enterrado num só tipo. Mas provavelmente existe um centro regulador interno que pauta suas decisões por uma dessas perspectivas em especial.

Vivemos numa sociedade que desperta certa apreensão e até mesmo fixação pelo futuro. Ao mesmo tempo, que nos incita a consumir, hoje. Somos desapropriados “sonambulicamente” do momento presente, o que explica a sensação de insatisfação constante.

Ao compreender essas dinâmicas, é tentador criamos uma identificação com esse ou aquele perfil, se orgulhando das possíveis vantagens. Por outro lado, é bem fácil nos culpar ao se perceber radicalmente aprisionado em um fluxo temporal nocivo.

Entenda, todas essas perspectivas foram construídas ao longo de anos, reforçadas por nosso contexto familiar, pessoal e profissional. No entanto, podem ser alteradas por pequenos exercícios diários.

Ao mergulhar em sua mente vai perceber espaços a serem reocupados. Vai também observar que tipo de sofrimento tem gerado para si e para os outros. Não existe uma “cura” para nenhuma dessas perspectivas. São, em última instância, meros vícios mentais. Espero que esse artigo os ajude a transitar com mais liberdade por todas elas.

Para Zimbardo e Boyde, o presente ainda é a única possibilidade real de realizar algum tipo de remodulação da visão sobre o ontem e o amanhã.

Nota do editor:  O trabalho da coluna ID é auxiliar em nossas jornadas de amadurecimento e desenvolvimento pessoal.

Empenhado e preparado

Para isso, vale utilizar esse espaço também para debater outros âmbitos da vida que estão além de amor e relacionamento, como família, angústias da solidão, da própria convivência consigo mesmo.

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