ABANDONAR UMA CARREIRA PODE SER UM ALÍVIO

Há muitos anos já que eu venho trabalhando com Orientação Profissional e com Coaching de Carreira. Além do tema da escolha da faculdade, trabalhamos algo que nem sempre é tão divulgado que é a mudança de carreira. Neste texto, vamos conversar sobre este tema e esclarecer melhor porque a mudança talvez pareça difícil e porque talvez seja um alívio.

CARREIRA E IDENTIDADE

Como a maioria de vocês deve saber, quando formamos em psicologia nós precisamos nos cadastrar no Conselho Federal de Psicologia, devemos ter um registro, um número que nos identifique como um profissional da área, um número único. Recebemos a carteira do Conselho que é válida em todo o território nacional como uma carteira de identidade. E é curioso pensar nisso.

A ideia de identidade, que vem da filosofia e é uma longa história (minha dissertação de mestrado fez com que eu estudasse essa matéria). Em resumo, dizemos que o conceito de identidade possui a fórmula: A = A. É uma identidade entre dois termos. Porém, A = A não nos diz nada, é uma tautologia. Razão pela qual temos que inserir uma novidade, um a mais, como A = B.

Explico melhor, quando digo: “Eu sou Felipe” estou estabelecendo uma identidade entre dois termos. “Eu sou psicólogo”. Outra identidade entre dois termos. Tudo isso é simples e fácil de entender. Nos identificamos com o nosso nome, nos identificamos para a polícia ou para os órgãos públicos como um número de CPF ou RG, e, entre outras coisas, nos identificamos com a profissão que assumimos.

Em uma conversa com uma pessoa que acabamos de conhecer, é muito comum esta identificação. “Eu trabalho como psicólogo e você?” ou “Eu sou psicólogo clínico”, e por aí vai.

No processo de mudança de carreira, porém, há um processo de não-identificação com a profissão escolhida. A pessoa diz ou pensa: “eu não me identifico mais com a profissão X”.

DESIDENTIFICAÇÃO COM A PROFISSÃO

Uma maneira bastante simples de pensar no que chamo aqui de desidentificação da profissão é pensar de novo na fórmula filosófica e lógica para o conceito de identidade: A = A (ou A = B). Se eu me identifico com a minha profissão, temos Eu = minha profissão. Se em um momento outro eu passo a não mais me identificar – ou porque nunca me identifiquei mas me formei – há uma diferença e não uma igualdade. Eu ≠ profissão.

E é muito muito importante salientar que não existe nada de errado quando não há a identificação com a profissão. Ou quando não há mais… Afinal, nada diz desde o começo que deveríamos ser isto ou aquilo, certo? Não há um carimbo genético, uma marca de nascimento que afirme que seria o nosso destino ser um profissional desta ou daquela área.

Porém, não raro aparecem culpas e cobranças, internas e externas. As pessoas frequentemente perguntam o que estamos fazendo, com o que estamos trabalhando, não é? Então é comum que haja uma cobrança por parte dos outros e talvez mais forte, uma cobrança interna.

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O PRIMEIRO PASSO: ACEITAR

Quando é o caso de realmente não haver mais identificação com a profissão, o primeiro passo é admitir o fato. Aceitar que não há a identificação. Só o processo de aceitação já traz um grande alívio, embora seja comum que leve meses ou até anos para que se aceite a realidade.

Em um primeiro momento é recomendável apenas aceitar que não há a identificação e pronto. Em um segundo momento, e somente em um segundo momento é que as novas resoluções devem ser pensadas. Senão, corre-se o risco de voltar a tentar se identificar por problemas de ordem prática. “Como vou ganhar dinheiro?” ou “O que vou fazer agora?” Estas perguntas podem trazer a sensação de insegurança e, portanto, acaba sendo tentador pensar em voltar atrás e não aceitar que não há a vontade de continuar com as escolhas anteriores.

Como diz um famoso provérbio japonês, há a necessidade de se reconhecer: “uma perda, um ganho”.

IDENTIDADES CAMBIANTES

Na psicologia e na sociologia, diversos autores deste século e do século passado, afirmam que todos nós temos diversas identidades. E, nas últimas décadas, tem despontado um panorama no qual as identidades são cada vez mais cambiantes, ou seja, mutáveis, maleáveis, líquidas.

Antigamente, cada pessoa tinha algumas identidades. O sujeito era um contador, pai, esposo, praticante da religião. Agora, além destas identidades básicas, o sujeito pode ser muito mais: além de contador pode ser blogueiro ou lutador de karatê e fazer cursos de culinária, ser padrasto, ecumênico, etc.

Conheci recentemente um monge budista que tem família e filhos e é consultor de empresas. Quando ligam para a sua casa ele pergunta: você quer falar com o monge ou com o consultor?

Na verdade, se formos olhar bem, as pessoas sempre tiveram várias identidades. Contudo, nos últimos tempos, a sociedade tem dado mais abertura para que possamos assumir mais identidades. Filosoficamente, não há empecilho para que a fórmula do conceito de identidade seja infinita. Eu sou = A, B, C, D, E, F, G, ∞ (infinito).

E QUANTO AOS DETALHES PRÁTICOS?

Bem, no processo de mudança de carreira, depois da aceitação, do primeiro passo, é evidente que será preciso cuidar dos detalhes práticos. Mas, didaticamente, podemos dividir o processo de mudança em dois modos:

  1. modo abrupto
  2. modo gradual

No modo abrupto, a pessoa sai do emprego, larga a profissão de um dia para o outro, de uma hora para outra e já trata de encontrar uma nova atividade. Por exemplo, o dentista fecha seu consultório na sexta e no sábado começa a trabalhar como músico.

No modo gradual, há uma transição mais lenta. O novo ainda não chegou totalmente, enquanto o velho continua existindo. Neste caso, o dentista em transição de carreira faz shows nos finais de semana e continua atendendo durante a semana por meses. Quando sente que dá para fazer a transição definitiva, larga o consultório e começa a trabalhar apenas com música.

CONCLUSÃO

Como dizemos no dia a dia, falar é fácil. Para quem está em dúvida ou está passando pelo processo de desidentificação, entretanto, o enfrentamento – interno e externo – talvez seja bastante difícil e emocionalmente tumultuado, com altos e baixos.

Apesar disso, continuo defendendo o argumento de que abandonar uma carreira pode ser um alívio. Se uma carreira é sentida como um peso, soltar o peso será um alívio…

Importante lembrar que os profissionais da psicologia podem ajudar no processo de transição.

 

 

Autor:  Professor Felipe de Souza

Fonte: http://www.psicologiamsn.com/2015/12/abandonar-uma-carreira-pode-ser-um-alivio.html

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