Como sair da areia movediça social? | Id #1

“Id” é a nova coluna do PdH, na qual o psicólogo Fred Mattos responde às dúvidas dos leitores. Começamos com essa:

Fred Mattos,

Gostei bastante dos seus artigos “Amor saco-roxo” e “Solidão masculina“. Eu acho que o que você diz é realmente verdade e afeta a maioria dos homens.

Eu sou da Bahia, tenho 18 anos e dificuldade em fazer amigos. Não me relaciono muito bem com a grande maioria dos homens. Acho que, apesar de tudo, a maioria dos homens tem pelo menos um amigo próximo. Eu não consigo ter esse tipo de amizade. Acho que é insegurança.

Sempre fui um cara inteligente, quieto, passivo, que os “valentões” provocavam na escola; sempre fui meio descoordenado, nunca gostei de futebol, não gosto da música local: arrocha (um tipo de música brega), pagode baiano (shows, pagodões, “reagges” são o maior tipo de socialização aqui). Sempre fui magrelo e, portanto, visto como fraco.

Outra fonte de insegurança é a minha falta de experiência com o sexo oposto. Às vezes, evito conversar com alguns caras, porque sei que o assunto vai surgir e eu não tenho muito o que dizer. Me sinto envergonhado de fato de ter quase 19 anos e nunca ter tido uma namorada. Espero mudar essa situação em breve, quando entrar para a universidade em setembro.

Eu fui “forçado” a admitir que era virgem para alguns colegas de trabalho. Eles até reagiram com mais naturalidade do que eu esperava, mas eu também não os contei que não tenho nenhuma experiência com garotas. Eu não me envolvi com garotas mais cedo porque era de uma religião que só permitia namorar garotas da mesma religião e nunca tive a chance.

Para combater essa insegurança, estou malhando, fazendo artes marciais e tentando fazer amizades com outros homens, mas estou me relacionando com eles de forma inautêntica.

É como se eu estivesse tentando agir como outra pessoa, mas é como se essa personalidade fosse ativada automaticamente. Não consigo ser “eu mesmo”, até o tom da minha voz muda. O que fazer nessa situação? Eu realmente agradeceria uma sugestão.

Até já,

Eliabe

Vamos lá, Eliabe, parte por parte.

Acho que você caiu num tipo de cilada típica de quem tenta sair da areia movediça: quanto mais aflito fica, mais afunda. Já aprendi que para sair dessa situação você precisa ter calma, foco e projetar todo o peso do tórax para frente, se arrastando lentamente para fora do terreno pegajoso. Nessa metáfora eu entendo que ao invés de se agitar é preciso concentrar forças na sua personalidade e manter certa humildade.

Nada de arroubos heróicos.

Amizades, não as tenho

“Tenho dificuldade em fazer amigos.”

Essa é a parte do ciclo decadente: você não fala com eles porque não consegue falar sobre mulheres e não consegue ficar com as mulheres porque não tem uma vida social intensa que cause agrado na hora da conversa.

Dica: comece pelo mais simples, fácil e o que tenha à mão. No caso, fique com seus amigos e ouça o que eles têm a dizer, crie um tipo de mimetização. Fábio Bracht falou um pouco dos neurônios espelhos nesse texto.

Não podemos ignorar o efeito das pessoas à nossa volta, portanto faça um esforço para não parecer tão estranho entre as pessoas da sua idade. Não há problema em usar “Crtl C + Crtl V social” quando estamos aprendendo — depois você cria o seu próprio repertório. Seja cover social de alguém, e depois suas inspirações musicais surgirão naturalmente.

Inadequação e bullying

“Sempre fui um cara inteligente, quieto, passivo, que os “valentões” provocavam na escola; sempre fui meio descoordenado, nunca gostei de futebol, não gosto da música local: arrocha (um tipo de música brega), pagode baiano (shows, pagodões, “reagges” são o maior tipo de socialização aqui). Sempre fui magrelo e, portanto, visto como fraco.”

Existe algo que as pessoas detestam quando eu falo, mas insisto: a princípio, finja ser diferente do que você é.

A pessoa que você se tornará não é você hoje, portanto, se compararmos, o seu EU de hoje é uma farsa na visão do seu EU passado. As roupas que usa hoje teriam sido consideradas ridículas, e ideias que nutre agora já foram alvo de seu preconceito no passado. Evolução é transgressão.

Ser fisicamente descoordenado é próprio de adolescentes que cresceram e não se acostumaram com o tamanho, mas também de quem não põe os pés na terra e só fica preso numa vida mental. Aposto que nunca descoordenou uma punheta. Tudo é prática. Chutar uma bola 100 vezes não fará de você um goleador, mas deixará você bem longe de um perna de pau, portanto, treine sair da estaca zero. Humildade mais uma vez.

Essa condição de saco de pancada tem duas vias: a primeira, e mais óbvia, é que você convive com caras violentos. A segunda, menos óbvia, é que você se alimenta dessa situação de fraqueza social para sentir autopiedade, mesmo que inconsciente. No fundo você se sente melhor que eles por ter gostos diferenciados. Esse tipo de idealismo é o que cria a experiência de exclusão, pois, sem perceber, você os condena por serem quem são.

Ou seja, você também os exclui — da mesma forma que é excluído.

Se o seu objetivo é a socialização, e eles falam uma língua estranha à sua, aprenda o “sotaque” social deles até criar condições de encontrar (ou criar) o seu grupo predileto de amizades. Lembre-se que, num primeiro momento, você só precisa deles para desenvolver aptidões sociais. Depois que tiver mais habilidade, pode seguir seu caminho. Eu já aprendi a falar sobre futebol (mesmo sem gostar) só para aprender a dialogar com algumas pessoas.

Utilitarismo? Sim, às vezes acontece. É inevitável em certas ocasiões. Mas a malandragem saudável não arranca pedaço de ninguém se seu objetivo for criar interações.

Ansiedade frente ao sexo oposto

“Outra fonte de insegurança é a minha falta de experiência com o sexo oposto.”

O sexo oposto ao seu é a mulher, e você pode ter experiência com muitas mulheres além das paqueras, como sua mãe, irmã, amiga, prima… O problema é que você quer mergulhar no mundo das mulheres já com a cabeça de baixo. Vá com calma e diminua sua ansiedade interagindo com qualquer mulher (mesmo que não queira conquistá-la) sem a afobação de pensar em sexo. Certa vez fiquei quarenta minutos conversando com uma freira só para conhecer aquela realidade tão diferente da minha. Essa história já rendeu assunto com muita gente.

Conheça o universo feminino, se quiser, pela ótica de espectador. Esperei (a contragosto) até os 21 anos para ter minha chance de ficar com uma garota e não posso dizer que me arrependo, pois ouvi muitas coisas a respeito do referencial feminino que me servem até hoje. Transar não precisa ser o seu alvo principal ao interagir com uma garota, mesmo que seja uma intenção subliminar incontrolável.

Muitas vezes o que precisa treinar é a sensação de dominância, portanto, treine a sua voz de comando com seu cachorro ou gato, na balada mire naquela menina que se sente tão deslocada quanto você, não adianta apontar para a gostosa cobiçada. Afinal, como vai treinar dominância social no “UFC da vida” lutando de cara com o Anderson Silva?

As mulheres, assim como qualquer ser humano, se interessam e apaixonam por pessoas e situações inusitadas, que tirem as nossas certezas e desafiem nossa percepção. Pense no show de um mágico e note a expressão de fascínio do público a cada novo número. É quase hipnotizante, afinal eles corrompem toda a lógica que aprendemos como certa.

O trivial nos distrai, portanto elas irão notar você caso tenha algo diferente — não esquisito, mas inusitado. Se sua vida for um punhado de previsibilidades racionais de um menino que está sempre na barra da saia da mãe, concordando com tudo o que os outros falam, nem o cara do espelho vai olhar pra você com admiração. Faça da sua vida um espaço exploratório, como sempre dizemos aqui no PdH.

Aprenda alguma habilidade específica (música, esporte, arte, cultura) que o tire de uma rotina enfadonha, afinal, como vai convidar alguém para entrar na sua casa emocional se você está louco para sair dela?

Mudanças, oh, mudanças…

“Espero mudar essa situação em breve quando entrar para a universidade em setembro.”

Jamais espere condições ideais para agir. Essa é a maior fonte de engano.

Na medida que avançamos na vida, os desafios ficam mais complexos e será em vão qualquer tentativa de esperar a água ficar quentinha para pular na piscina. Pule na piscina, depois o seu corpo reage, se adequa, aquece e você se acostuma. Agora você vai esperar a faculdade, depois vai esperar o fim da faculdade, depois vai esperar o seu primeiro emprego na área, depois o primeiro milhão e assim por diante. As condições nunca serão ideais.

Sempre que tentar colocar uma condicional para agir, sua mente irá criar uma armadilha para que essa condicional se distancie das suas mãos.

Aja agora, treine em espaços menos hostis, interaja com pessoas que você considere menos ameaçadoras e vá num crescente de desafios. Quanto mais complexa a tarefa, melhor é começar cedo.

Essência x aparência

“É como se eu estivesse tentando agir como outra pessoa, mas é como se essa personalidade fosse ativada automaticamente. Não consigo ser ‘eu mesmo’, até o tom da minha voz muda. O que fazer nessa situação? Eu realmente agradeceria uma sugestão.”

Sim, Eliabe, no começo você irá sempre sentir estranho, pois sairá de seus condicionamentos habituais. Essa ideia do “eu mesmo” pode ser um engano, pois o seu “eu mesmo” habitual está sempre acostumado com aquilo que empobrece sua vida e está acuado a tal ponto que não consegue sair da passividade social.

Se você não sente que eles acrescentam alguma coisa então acrescente você a eles, como o Alberto Brandão fala nesse texto. Só não espere que as pessoas mudem para você mudar. O mundo não é um berçário.

Abraços,

Fred Mattos

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“Id” é a nova coluna do PdH, na qual o psicólogo Fred Mattos responde às dúvidas dos leitores.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Isso não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações, pois sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro “Como se libertar do ex”. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, medita, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida escreve no blog Sobre a vida. No twitter é @fredmattos.

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