ENTREVISTA COM GIORGIO AGAMBEN

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Revista do Departamento de Psicologia – UFF, v. 18 – n. 1, p. 131-136, Jan./Jun. 2006

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ENTREVISTA COM GIORGIO AGAMBEN

Entrevistadora: Flavia Costa
Tradução de Susana Scramim

Flavia Costa: Na introdução de Homo Sacer I, você afirma que havia con-
cebido inicialmente o livro como uma resposta à “sangrenta mistificação de uma
nova ordem planetária” (e que em seu desenvolvimento se viu diante de proble-
mas, como o da sacralidade da vida, que não estavam no plano inicial). Como se
conforma a partir de então seu projeto intelectual?
GIORGIO AGAMBEN: Quando comecei a trabalhar em Homo Sacer,
soube que estava abrindo um canteiro que implicaria anos de escavações e de
pesquisa, algo que não poderia jamais ser levado a termo e que, em todo caso, não
poderia ser esgotado certamente em um só livro. Daí que o algarismo I no
frontispício de Homo Sacer é importante. Depois da publicação do livro,
freqüentemente me acusam de oferecer ali conclusões pessimistas, quando na rea-
lidade deveria ter ficado claro desde o princípio que se tratava somente de um
primeiro volume, no qual expunha uma série de premissas e não de conclusões.
Talvez tenha chegado o momento de explicitar o plano da obra, ao menos tal como
ele se apresenta agora em minha mente. Ao primeiro volume (O poder soberano e
a vida nua, publicado em 1995), seguirá um segundo, que terá a forma de uma
série de investigações genealógicas sobre os paradigmas (teológicos, jurídicos e
biopolíticos) que têm exercido uma influência determinante sobre o desenvolvi-
mento e a ordem política global das sociedades ocidentais. O livro Estado de
exceção (publicado em 2003) não é senão a primeira dessas investigações, uma
arqueologia do direito que, por evidentes razões de atualidade e de urgência, pare-
ceu-me que devia antecipar em um volume à parte. Porém, inclusive aqui, o alga-
rismo II, indicando a seqüência da série, e o algarismo I no frontispício indicam
que se trata unicamente da primeira parte de um livro maior, que compreenderá
um tipo de arqueologia da biopolítica sob a forma de diversos estudos sobre a
guerra civil, a origem teológica da oikonomia, o juramento e o conceito de vida
(zoé) que estavam já nos fundamentos de Homo Sacer I. O terceiro volume, que
contém uma teoria do sujeito ético como testemunha, apareceu no ano de 1998
com o título Ciò che resta di Auschwitz. L’Archivio e il testimone. No entanto,
talvez será somente com o quarto volume que a investigação completa aparecerá
sob sua luz própria. Trata-se de um projeto para o qual não só é extremamente
difícil individualizar um âmbito de investigação adequado, senão que tenho a im-
pressão de que a cada passo o terreno desaparece debaixo dos meus pés. Posso
dizer unicamente que no centro desse quarto livro estarão os conceitos de forma-
de-vida e de uso, e que o que está posto em jogo ali é a tentativa de capturar a outra
face da vida nua, uma possível transformação da biopolítica em uma nova política.

Tradutora de Estado de excepción. Buenos Aires: Editorial Adriana Hidalgo, 2004.

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F. C.: Você integra um grupo não muito extenso de pesquisadores europeus
que têm realizado uma leitura atenta de autores como Martin Heidegger e Carl
Schmitt, e a tem incluído no marco de um pensamento – por assim dizer –
emancipatório. Como foi se articulando em sua bibliografia intelectual a leitura
desses autores?
G. A.: Os dois autores que você cita tiveram em minha vida um peso dife-
rente. O encontro com Heidegger foi relativamente cedo, e ele inclusive foi
determinante em minha formação depois dos seminários de Lê Thor, em 1966 e
em 1968. Mais ou menos nos mesmos anos durante os quais eu lia Walter Benja-
min, leitura que talvez me serviu de antídoto ante o pensamento de Heidegger.
Estava em questão o conceito mesmo de filosofia, o modo pelo qual deveria res-
ponder à pergunta, prática e teórica ao mesmo tempo: que é a filosofia? O encon-
tro com Carl Schmitt se deu, por outro lado, relativamente tarde, e teve um caráter
totalmente distinto. Era evidente (creio que é evidente para qualquer um que não
seja estúpido nem tenha má-fé, ou, como acontece freqüentemente, as duas coisas
juntas) que, se queria trabalhar com o direito e sobre a política, era com ele que eu
deveria medir-me. Como com um inimigo, antes de tudo – mas a antinomia ami-
go-inimigo era precisamente uma das teses schmittianas que eu queria pôr em
questão.
F. C.: A recepção de sua obra tem sido polêmica em alguns países, sobretu-
do na Alemanha. Talvez um dos momentos mais provocadores de seu trabalho
seja quando rastreia e expõe a matriz comum (a “íntima solidariedade”) entre
democracia e totalitarismo. Como você comenta isso?
G. A.:Na perspectiva arqueológica, que é a de minha pesquisa, as antinomias
(por exemplo, a da democracia versus totalitarismo) não desaparecem, mas per-
dem seu caráter substancial e se transformam em campos de tensões polares, entre
as quais é possível encontrar uma via de saída. Não se trata, então, de distinguir o
que é bom do que é mal em Heidegger ou em Schmitt. Deixemos isto aos bem
pensantes. O problema, sobretudo, é que se não se compreende o que se põe em
jogo no fascismo, não se chega a observar sequer o sentido da democracia.
F. C.: O que você entende por arqueologia? Que lugar ocupa em seu méto-
do de trabalho?
G. A.: Meu método é arqueológico e paradigmático num sentido muito pró-
ximo ao de Foucault, mas não completamente coincidente com ele. Trata-se, dian-
te das dicotomias que estruturam nossa cultura, de ir além das exceções que as têm
produzido, porém não para encontrar um estado cronologicamente originário, mas,
ao contrário, para poder compreender a situação na qual nos encontramos. A ar-
queologia é, nesse sentido, a única via de acesso ao presente. Porém, superar a
lógica binária significa, sobretudo, ser capaz de transformar cada vez as dicotomias
em bipolaridades, as oposições substanciais num campo de forças percorrido por
tensões polares que estão presentes em cada um dos pontos sem que exista alguma
possibilidade de traçar linhas claras de demarcação. Lógica do campo contra lógi-
ca da substância. Significa, entre outras coisas, que entre A e A se dá um terceiro

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elemento que não pode ser, entretanto, um novo elemento homogêneo e similar
aos anteriores: ele não é outra coisa que a neutralização e a transformação dos dois
primeiros. Significa, enfim, trabalhar por paradigmas, neutralizando a falsa
dicotomia entre universal e particular. Um paradigma (o termo em grego quer
dizer simplesmente “exemplo”) é um fenômeno particular que, enquanto tal, vale
por todos os casos do mesmo gênero e adquire assim a capacidade de construir um
conjunto problemático mais vasto. Nesse sentido, o panóptico em Foucault e o
duplo corpo do rei em Kantorowicz são paradigmas que abrem um novo horizonte
para a investigação histórica, subtraindo-a aos contextos metonímicos cronológi-
cos (França, o século XVIII). No mesmo sentido, em meu trabalho, lancei mão
constantemente dos paradigmas: o homo sacer não é somente uma figura obscura
do direito romano arcaico, senão também a cifra para compreender a biopolítica
contemporânea. O mesmo pode ser dito do “muçulmano” em Auschwitz e do
estado de exceção.
F. C.: No livro, você historiciza o processo – acelerado depois da Primeira
Guerra Mundial – segundo o qual o estado de exceção se transforma em regra; o
paradigma de governo dominante na política contemporânea. Como você chega a
esta idéia?
G. A.: Para mim tratava-se, sobretudo, de compreender a profunda transfor-
mação que se havia produzido na constituição material, isto é, na vida política das
assim chamadas democracias nas quais vivemos. Está claro que nenhuma das ca-
tegorias fundamentais da tradição democrática manteve seu sentido, sobre isso
não podemos estar iludidos. Em Estado de exceção tentei indagar essa transfor-
mação de um ponto de vista do direito; perguntei-me o que significa viver em um
estado de exceção permanente. Creio que os dois campos de investigação que
Foucault deixou de lado, o direito e a teologia, são extremamente importantes para
compreender nossa situação presente. Em todo caso, é nesses dois âmbitos que
tenho trabalhado nesses últimos anos.
F. C.: Por que você considera fundamental uma teoria geral do estado de
exceção: uma teoria do vazio do direito que, contudo, o funda? Imagina uma práxis
para essa teoria?
G. A.: Algumas vezes foi dito que em cada livro há algo assim com um
centro que permanece escondido; e que é para aproximar-se, para encontrar e – às
vezes – para evitar esse centro que se escreve esse livro. Se tivesse de dizer qual é,
no caso do Estado de exceção, esse núcleo problemático, diria que está na relação
entre anomia e direito, que no curso da pesquisa apareceu como a estrutura
constitutiva da ordem jurídica. Um dos objetivos do livro era precisamente a ten-
tativa de abordar e analisar essa dupla natureza do direito, essa ambigüidade
constitutiva da ordem jurídica pela qual esta parece estar sempre fora e dentro de
si mesma, simultaneamente vida e norma, fato e direito. O estado de exceção é o
lugar no qual essa ambigüidade vem à luz e, simultaneamente, o dispositivo que
deveria manter unidos os dois elementos contraditórios do sistema jurídico. Ele é,
nesse sentido, aquilo que funda o nexo entre violência e direito e, ao mesmo tem-
po, no ponto em que se torna “efetivo”, aquilo que rompe com esse nexo. E para

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responder à segunda parte de sua pergunta, diria que a ruptura do nexo entre vio-
lência e direito abre duas perspectivas à imaginação (a imaginação é naturalmente
já uma práxis): a primeira é a de uma ação humana sem nenhuma relação com o
direito, a violência revolucionária de Benjamin ou um “uso” das coisas e dos cor-
pos que não tenha nunca a forma de um direito; a segunda é a de um direito sem
nenhuma relação com a vida – o direito não aplicado, mas somente estudado, do
qual Benjamin dizia que é a porta da justiça.
F. C.: Você afirma que não há um retorno possível do estado de exceção
em que vivemos imersos para o estado de direito. Que a tarefa que nos ocupa é,
em todo caso, a de denunciar a ficção da articulação entre violência e direito, entre
vida e norma, para abrir ali a cesura, o campo da política. Contudo, não nos deve-
mos também uma teoria, não tanto do “poder constituinte” como da “instituição
política”, quer dizer, uma teoria sobre a “práxis articulatória” que inclua a
politicidade do vivente como um elemento central?
G. A.: Precisamente porque se trata de romper o nexo entre violência e
direito, o problema aqui é que devemos superar a falsa alternativa entre poder
constituinte e poder constituído, entre a violência que instala o direito e a violên-
cia que o conserva. Porém, precisamente por isso me parece que não se trata tanto
de “instituir” e de “articular”, como de destruir e desarticular. Em geral, em nossa
cultura o homem tem sido pensado sempre com a articulação e a conjunção dos
princípios opostos: uma alma e um corpo, a linguagem e a vida, nesse caso um
elemento político e um elemento vivente. Devemos, ao contrário, aprender a pen-
sar o homem como aquele que resulta da desconexão desses dois elementos e
investigar não o mistério metafísico da conjunção, mas o mistério prático e políti-
co da separação.
F. C.: A dinâmica de como desinstalar o instituído sem instituir ao mesmo
tempo uma nova instituição remete certamente à idéia de revolução permanente.
Pergunto-lhe não pelo “o que fazer?”, mas sim até onde crê que é possível e dese-
jável orientar-se na tentativa de pensar uma política “completamente nova”?
G. A.: Diria que o problema da revolução permanente é o de uma potên-
cia que não se desenvolve nunca em ato, e, ao contrário, sobrevive a ele e nele.
Creio que seria extremamente importante chegar a pensar de um modo novo a
relação entre a potência e o ato, o possível e o real. Não é o possível que exige ser
realizado, mas é a realidade que exige tornar-se possível. Pensamento, práxis e
imaginação (três coisas que jamais deveriam ser separadas) convergem nesse de-
safio comum: tornar possível a vida.
F. C.: No primeiro capítulo – de O Estado de exceção – você assinala que,
em que pese a crescente conversão das democracias parlamentares em governa-
mentais, e o aumento do “decisionismo” do poder executivo, os cidadãos ociden-
tais não registram essas mudanças e crêem seguir vivendo em democracias. Você
tem uma hipótese sobre por que isso acontece? Caberia enfocar esse tema com
base em uma teoria sobre a sujeição voluntária ao poder disciplinar (aquilo que
Legendre chama “o modo em que o poder se faz amar”)?

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G. A.: O problema da sujeição voluntária coincide com aqueles processos
de subjetivação sobre os quais trabalhava Foucault. Foucault mostrou, parece-me,
que cada subjetivação implica a inserção em uma rede de relações de poder, nesse
sentido uma microfísica do poder. Eu penso que tão interessantes como os proces-
sos de subjetivação são os processos de dessubjetivação. Se nós aplicamos tam-
bém aqui a transformação das dicotomias em bipolaridades, poderemos dizer que
o sujeito apresenta-se como um campo de forças percorrido por duas tensões
que se opõem: uma que vai até a subjetivação e outra que procede em direção
oposta. O sujeito não é outra coisa que o resto, a não-consciência desses dois
processos. Está claro que serão as considerações estratégicas aquelas que decidi-
rão, a cada momento, sobre qual pólo fazer a alavanca para desativar as relações
de poder, de que modo fazer jogar a dessubjetivação contra a subjetivação e vice-
versa. Letal é, por outro lado, toda política das identidades, ainda que se trate da
identidade do contestatário e a do dissidente.
F. C.: Você afirma que “vida nua” e “norma” não são coisas preexistentes à
máquina biopolítica, são um produto de sua articulação. Você poderia explicar
isto? Porque é mais simples compreender que o direito foi “inventado”, mas custa
mais se desembaraçar da idéia de que os seres humanos somos, em algum sentido,
“existências nuas”, que pouco a pouco vamos aprovisionando-nos de nossas rou-
pagens: língua, normas, hábitos…
G. A.: Aquilo que chamo vida nua é uma produção específica do poder e
não um dado natural. Enquanto nos movimentarmos no espaço e retrocedermos
no tempo, jamais encontraremos – nem sequer as condições mais primitivas – um
homem sem linguagem e sem cultura. Nem sequer a criança é vida nua: ao contrá-
rio, vive em uma espécie de corte bizantina na qual cada ato está sempre já reves-
tido de suas formas cerimoniais. Podemos, por outro lado, produzir artificialmen-
te condições nas quais algo assim como uma vida nua se separa de seu contexto: o
muçulmano em Auschwitz, a pessoa em estado de coma etc. É no sentido que eu
dizia antes que é mais interessante indagar como se produz a desarticulação real
do humano do que especular sobre como foi produzida uma articulação que, pelo
o que sabemos, é um mitologema. O humano e o inumano são somente dois vetores
no campo de força do vivente. E esse campo é integralmente histórico, se é verda-
de que se dá história de tudo aquilo de que se dá vida. Porém, nesse continuum
vivente se podem produzir interrupções e cesuras: o “muçulmano” em Auschwitz
e o testemunho que responde por ele são duas singularidades desse gênero.
F. C.: Em Homo sacer I você diz: “O corpo técnico do Ocidente já não pode
superar-se em outro corpo técnico ou integralmente político […]. Antes será preci-
so fazer do próprio corpo biopolítico, da vida nua mesma, o lugar no qual se
constitui e assenta uma forma de vida vertida integralmente nessa vida nua. Um
bios que seja somente sua zoé”. Como você analisa as ilusões de “superar” o corpo
biológico (e biopolítico) num corpo técnico?
G. A.: A frase que você citou sobre um bios que é somente sua zoé é para
mim o selo e a empresa do que resta pensar. Todos os problemas, incluído o da
técnica, deverão ser reinscritos na perspectiva de uma vida inseparável de sua

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forma. No fundo, a vida fisiológica não é outra coisa que uma técnica esquecida,
um saber tão antigo que já perdemos toda memória dele. Uma apropriação da
técnica não poderá ser feita sem um re-pensamento preliminar do corpo biopolítico
do Ocidente.
F. C.: Nos últimos anos, muitas das energias do pensamento sobre a resis-
tência e a emancipação se concentraram em desenvolver uma teoria da defecção,
do êxodo (por exemplo, penso em Toni Negri e Michael Hardt, Paolo Virno, Albert
Hirschmann). Quer dizer, diante da expansão totalitária em escala global, parece
haver uma aposta na negatividade, no silêncio e no exit. Qual a sua opinião sobre
isto?
G. A.: Para dizer a verdade, não estou muito convencido de que o êxodo
seja hoje um paradigma verdadeiramente praticável. O sentido desse paradigma é,
por outro lado, solidário do paradigma do Império, com o qual forma sistema. A
analogia com a história da relação entre vida monástica e o Império Romano nos
primeiros séculos da era cristã é iluminadora. Também nessa época, fizeram frente
a um poder global centralizado formas de êxodo organizado que deram vida às
grandes ordens conventuais. A analogia com a situação descrita em um livro re-
cente que teve muita sorte é evidente. Inclusive, às vezes, penso que Negri e Hardt
têm perfeito equivalente em Eusebio Cesarea, o teólogo da corte de Constantino
(que Overbeck definia ironicamente como o friser da peruca teológica do impera-
dor). Eusebio é o primeiro cristão a teorizar sobre a superioridade do único poder
imperial sobre o poder das diversas pessoas e nações. Ao único Deus nos céus
corresponde um único império sobre a terra. A história das relações entre Igreja e
Império Romano é uma mescla e uma alternância de êxodo e alianças, de rivalida-
de e negociatas. Contudo, a cidade celeste de Agostinho ainda é peregrina, quer
dizer, está no êxodo mesmo quando está em seu próprio terreno. Não creio que
tenha sentido aplicar hoje o mesmo modelo. O êxodo da vida monástica fundava-
se de fato sobre uma radical heterogeneidade da forma de vida cristã e sobre uma
sólida fé comum, apesar disso, não alcançou ser verdadeiramente antagonista.
Hoje, o problema é que uma forma de vida verdadeiramente heterogênea não exis-
te, ao menos nos países do capitalismo avançado. Nas condições presentes, o êxodo
pode assumir somente formas subalternas e não é uma causalidade se termina
pedindo ao inimigo imperial que lhe pague um salário. Está claro que uma vida
separada de sua forma, uma vida que se deixa subjetivar como vida nua não estará
em condições de construir uma alternativa ao império. O que não significa que
não seja possível trazer do êxodo modelos e reflexões. Penso, por exemplo, nos
conceitos franciscanos de uso e de forma de vida, que são ainda hoje extremamen-
te interessantes.

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