Os desafios da educação sexual

Mundo Jovem   8 – fevereiro/2008  www.mundojovem.com.br

Sexo está na roda! Esse assunto tem rolado solto nos últimos anos entre os jovens. Se encontrarmos um grupo no intervalo ou na saída do colégio, esse pode ser um dos temas em pauta. Ao chegar em casa e ligar a televisão, o sexo está na mídia, na novela, no programa educativo ou no de entrevistas. No entanto sabemos que, mesmo assim, nem sempre ele está no assunto comum entre pais e filhos, alunos e professores.

Adriano Beiras , psicólogo, mestre em Psicologia e pesquisador do Núcleo Margens (Modos de Vida, Família e Relações de Gênero), do Departamento de Psicologia da UFSC.

Estaria mais fácil agora falar de sexo? Talvez não. Existem diferenças de gerações, desconfortos e, ainda assim, barreiras. Então, por onde começar, o que falta ainda mudar? Uma dica: nós mesmos, educadores, psicólogos, profissionais, pais, comunicadores é que devemos mudar.

Ações participativas e vivenciais
As estratégias existentes de educação e saúde no contexto da escola têm sido muito pontuais e pouco expressivas. Os serviços disponibilizados na escola resumem-se, muitas vezes, a palestras e a panfletos informativos. Não há sistematicidade, nem continuidade dos trabalhos. Trata-se de ações específicas a temas pontuais com foco muito mais na prevenção das doenças do que na promoção da saúde. Há uma lacuna quando às estratégias de integração educação-saúde que se reflete na dinâmica da comunidade, na qual não há integralidade entre as ações desenvolvidas na escola e as aplicadas nos postos de saúde do bairro, por exemplo.
Em conseqüência, faz-se necessário destacar a importância da implantação de programas que ultrapassem o âmbito educativo, biomédico e/ou programas em formato de palestras e propagandas. Percebemos a importância de ir além, realizando oficinas, com espaço de trocas de experiências, dúvidas, crenças, medos, entre jovens, professores e pais. Tais encontros devem ser mais participativos e vivenciais. A abordagem seria outra, a recepção também.
Nesse assunto , é preferível não trazer nenhuma receita, mas o que os pais podem fazer, inicialmente, é olhar para si mesmos e deixar claro, na comunicação com os filhos, suas próprias dificuldades, para romper o abismo que acaba se criando, no que se refere a falar de sexo. A partir disso, é recomendável deixarem-se disponíveis para o(a) filho(a) e para conhecer o novo: procurar saber como é a questão sexo na atualidade, as diferenças de como foi para eles, respeitando as diferenças.

Buscar novas abordagens
O adolescente também deve mostrar-se interessado. Se ele não se sente à vontade para conversar com pais ou professores, provavelmente vai conversar com um amigo mais próximo; mas às vezes nem isso ocorre. O importante, aqui, é que ele saiba que pode contar com os pais, com algum professor que ele goste mais, ou agente de saúde etc. Que saiba qual profissional de saúde pode ajudá-lo, um médico ou enfermeiro(a) do posto, por exemplo. Para isso é necessário que ele seja informado desta rede, para recorrer no momento em que precisar.
Em pesquisas e oficinas que já realizei, os jovens mostraram ter bons conhecimentos sobre uso da camisinha e outros métodos contraceptivos, doenças sexualmente transmissíveis (DST) e aborto. A questão é o que fazem com essas informações. Isso nos faz pensar se realizar palestras educativas com fotos e com um discurso baseado no temor à gravidez precoce e às DST é suficiente para os jovens.
Penso que é para esse ponto que precisamos direcionar nosso olhar em relação à juventude. É necessário pensar em outras formas de atingir este púplico, levando informações e tirando suas dúvidas, discutindo com eles o que sabem, o que não sabem, falando sobre o gênero e saúde, mas, fundamentalmente, problematizando costumes e tradições baseadas em valores sexistas.
Muitas vezes, o que ocorre é que pais ou professores acabam sendo muito didáticos, ou seja, adotam um postura professoral com os jovens. O que eles precisam é de confiança e empatia para iniciar qualquer diálogo. Na medida em que o professor ou os pais também se sintam mais à vontade para trabalhar a questão da educação sexual, podem trazer o tema de maneiras indiretas, seja na aula de redação, seja na de história, numa conversa em uma reunião familiar ou sobre outros assuntos relacionados, sem ser de forma diretiva e cheia de zelos.
Os questionamentos começam por nós, profissionais: Será que é fácil falarmos sobre sexo e orientar sobre o assunto? Que dificuldades e barreiras vivenciamos dentro de nós? Este pode ser o começo de uma intervenção eficaz, que provoque mudanças e diálogos.

Dinâmica:
Histórias que me contaram

Objetivo: Possibilitar a expressão sobre o que é ser homem e ser mulher.
Material: Papel e lápis.
Desenvolvimento:
1) Grupo em círculo, sentado;
2) Pedir que cada participante liste as histórias, provérbios, ditos, ordens significativas que já ouviram sobre homens e mulheres, sobre como se comportar em relação ao seu próprio sexo e ao oposto, desde a infância até a fase atual;
3) Depois que todos tiverem feito o trabalho individualmente, formar subgrupos, nos quais devem ler o que escreveram, trocando experiências;
4) No subgrupo, tentar encontrar os pontos comuns e as diferenças, listando as conclusões (respostas) a que chegaram;
5) Cada subgrupo apresenta suas conclusões;
6) Plenário – Compartilhar com o grande grupo suas reflexões:
– De tudo o que ouviu, o que ainda é válido para você hoje?
– É difícil para você mudar posturas e atitudes? Justifique.
– Quais os mitos e tabus mais comuns no grupo?
Comentário: É necessário explorar todas as colocações, buscando a origem de cada mito ou tabu apresentado, desmitificando, dessa forma, as idéias sobre a sexualidade.

Fonte: Margarida Serrão e Maria C. Baleeiro, “APRENDENDO A SER E A CONVIVER”, Fundação Odebrecht/FTD Editora.

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