"Mandamentos" do Psicoterapeuta Existencial – Psicóloga Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo

Publicado no Informativo IFEN 1/98
Encontra-se em Kierkegaard, teólogo e filósofo, mais precisamente na obra Meu Ponto de Vista (1846), recomendações acerca da arte de ajudar o outro. Este autor tem como objetivo maior alcançar o ser existente na sua realidade concreta, marcando toda a sua obra por uma intensa tentativa de levar o homem ao conhecimento de si mesmo. Especialmente neste ponto ele se aproxima do psicoterapeuta existencial e, portanto, esta obra de Kierkegaard, traz enorme contribuição. Tanto quanto o conteúdo que pode sugerir para a prática da psicoterapia existencial, como a forma que esse autor imprime para a concretização do objetivo – ajudar o outro.
Abaixo estão relacionados esses itens, que foram chamados de mandamentos para fazer uma referência ao aspecto religioso muito presente na vida do autor:
1º) Pela impossibilidade de destruir uma ilusão por via direta, deve-se então fazê-lo por meios indiretos. Só assim a ilusão pode ser arrancada pela raiz.

2º) O método indireto organiza-se dialeticamente para em seguida retirar-se, timidamente. Desta forma, aquele que ajuda não presencia o reconhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido uma ilusão.

3º) Quando se pretende ajudar o outro, deve-se promover a aproximação, permanecendo na situação de acompanhar aquele que está sob a ilusão. Só desta forma haverá a possibilidade de tirarmos o homem de sua ilusão. Sabendo-se desde o início que é uma tarefa difícil em qualquer caso.

4º) Aquele que vive na ilusão, em maior parte, vivencia a categoria estético-ética. A fim de atacar com disposição a ilusão, deve-se chegar até ele, para então poderem caminhar juntos. O escritor religioso, para entrar em contato com os homens, deve começar com as obras estéticas. Esta é a estratégia.

5º) É importante ter paciência, pois com impaciência pode-se acabar fortalecendo a ilusão. Faz-se necessário ser cuidadoso para poder dissipar a tal ilusão.

6º) Para levar um homem ao seu centro é preciso chegar onde ele se encontra e começar por aí. Este é o segredo da arte de ajudar os demais.

7º) Para se ajudar o outro deve-se entender mais do que ele entende, mas antes de tudo deve-se entender o que ele entende. Se assim não for, a ajuda de nada lhe valerá. Tudo começa quando se pode entender o que o outro entende e a forma como se entende.

8º) Se orgulhoso do meu conhecimento, antes de ajudar o outro, o que desejo é que me admirem. O autêntico esforço para ajudar começa com uma atitude humilde. O que ajuda deve-se colocar como desconhecendo mais do que aquele a quem ajuda.

9º) Ajudar não significa ser soberano, e sim criado. Ajudar não significa ser ambicioso, e sim paciente. Ajudar significa ter que resistir, no futuro, à imputação de que está equivocado e, portanto, não se entende o que o outro entende.

10º) Apenas se chega até aquele que está equivocado, mostrando-se um ouvinte complacente e atento.

11º) Aquele que está disposto a ajudar carrega consigo a responsabilidade e também deve despender de todo o esforço, porém sabendo que tudo isto só vai ter relação ao resultado obtido.

12º) As interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam aquele que fala do seu sofrimento, sem que ele saiba que não se compartilha de sua paixão e, sim, que se quer livrá-lo dela.

13º) Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o outro encontra mais prazer em contar, sem assombro.

14º) Apresentar-se com o tipo de paixão do outro homem: alegre para os alegres, em tom menor para os melancólicos, facilita a aproximação.

15º) Não temer fazer tudo isto, mesmo que na verdade não se possa fazer sem medo e temor.

16º) Chegar a ser o que se é consiste em chegar à interioridade através da reflexão, ou ainda significa desembaraçar-se dos laços da própria ilusão, o que também é uma modificação reflexiva.

17º) Quando um homem não quer ser conduzido, resta ainda obrigá-lo a dar-se conta do ponto em que ele está.”

KIERKEGAARD, Soren Aabye – Meu Ponto de Vista, 1846.

Psicóloga Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
Professora da PUC/RJ
Doutora em Psicologia na UFRJ
Presidente do IFEN

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