Estresse e Esgotamento

Incluído em 31/01/2005

É muito tênue o limte entre a loucura e a desrazão. A expressiva maioria dos Transtornos Afetivos, onde se incluí a Depressão, proporciona atitudes psicoemocionais não alienantes, ou seja, proporcionam um descontrole da crítica e do juízo muito mais próximo da desrazão que da alienação. As patologias alienantes são as esquizofrenias, demências, deficiências mentais, psicoses orgânicas e surtos de mania.

Devemos considerar o estresse uma ocorrência fisiológica e normal no reino animal. O estresse é a atitude biológica necessária para a adaptação do organismo à uma nova situação. Em medicina entende-se o estresse como uma ocorrência global, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista emocional. As primeiras pesquisas médicas sobre o estresse estudaram toda uma constelação de alterações orgânicas produzidas no organismo diante de uma situação de agressão.

Fisicamente o estresse aparece quando o organismo é submetido à uma nova situação, como uma cirurgia ou uma infecção, por exemplo, ou, do ponto de vista psicoemocional, à uma situação entendida como de ameaça. De qualquer forma, trata-se de um organismo submetido à uma situação nova (física ou psíquica), pela qual ele terá de lutar para adaptar-se, conseqüentemente, sobreviver. Portanto, o estresse é um mecanismo indispensável para a manutenção da adaptação à vida, indispensável pois, à sobrevivência.
Esgotamento

Atualmente esse termo é de uso corrente entre as pessoas participantes daquilo que chamamos vida moderna. Ninguém gosta de pensar na Ansiedade, no Estresse, no Esgotamento ou na Depressão como formas de algum transtorno emocional, é claro. Isso pode parecer muito próximo do descontrole, da “piração” ou da loucura e, como de fato, todos temos a possibilidade de, pelo menos uma vez na vida, sermos afetados pelo estresse, pelo esgotamento ou pela depressão, então será melhor não considerá-los como formas de algum transtorno emocional.

O que popularmente (e corretamente) se conhece por esgotamento teria origem em duas ocasiões (Figura 1): primeiro, quando a situação à qual a pessoa terá que se adaptar (estímulo externo ou interno) for suficientemente importante e duradoura para gerar forte tensão. Nesse caso haverá esgotamento por falência adaptativa, devido aos esforços (emocionais) para superar uma situação de forte tensão, normalmente considerada provocativa do ponto de vista subjetivo ou objetivo (situação b da Figura 1). Isso quer dizer que o estímulo necessário para desencadear o estresse seria ameaçador tanto para a pessoa que a ele está reagindo, quanto para outras pessoas submetidas à mesma situação.

Figura 1 – Situação de estressores.
Condição A: pessoa com estrutura normal suportando estressores normais da vida (valor 1). Menores chances de ruptura.
Condição B: pessoa com estrutura normal suportando estressores muito mais pesados (valor 3). Maiores chances de ruptura.
Condição C: pessoa com estrutura afetiva mais frágil suportando estressores normais da vida (valor 1). Maiores chances de ruptura.

Em segundo lugar, o esgotamento ocorre quando a pessoa não dispõe de estabilidade emocional suficientemente adequada para adaptar-se a vários aspectos da vida cotidiana. Os estímulos estressores, nesse caso, são estressores exclusivamente para essa determinada pessoa, portanto, objetivamente falando, são estímulos não tão traumáticos (situação c da Figura 4). Isso quer dizer que a pessoa sucumbiria emocionalmente a situações não tão aversivas para outras pessoas colocadas na mesma situação mas, não obstante, particularmente agressivas a ela. Seria uma ameaça subjetivamente representada.

Digamos, então, que o esgotamento ou a ansiedade crônica e patológica poderiam surgir em duas circunstâncias: 1 – decorrente daquilo que o mundo traz à pessoa (seu destino) e; 2 – decorrente daquilo que a pessoa traz ao mundo (sua sensibilidade pessoal).

O assunto poderia ser tratado dessa forma simples e prática, sem mistérios, se não fosse o ditado popular de que “cachorro mordido por cobra tem medo de lingüiça”. Isso sugere a idéia de que o destino pode, não obstante, modular ou condicionar determinada forma de valorizar a realidade, a tal ponto que os fatos poderiam, dependendo das vivências de cada um, significar estímulos de maior ou menor capacidade estressora.

Assim sendo, podemos supor que nossos filtros afetivos tenham, não apenas uma natureza constitucional ou biológica mas, sobretudo, uma natureza bio-psíco-dinâmica. Nesse caso, a serotonina, o GABA, os neuroreceptores variados, a adrenalina e as vias neuronais, representariam a porção constituição da personalidade que reage à vida, de maneira específica e pessoal. A vida ou o destino em si, por outro lado, representariam o elemento circunstancial da personalidade que reage à vida.

Assim sendo, a situação conhecida por esgotamento não se limita às questões adaptativas de natureza eminentemente emocional, como acreditam muitos. Fisicamente há no esgotamento alterações significativas em todo organismo, a começar pelas glândulas supra-renais (de adrenalina e cortisona). Por causa das alterações hormonais produzidas nessas glândulas no “esgotamento”, poderá haver dificuldades no controle da pressão arterial, alterações do ritmo cardíaco, alterações no sistema imunológico e no controle dos níveis de glicose do sangue, entre muitas outras modificações orgânicas. Psiquicamente, a ansiedade crônica do “esgotamento” acaba levando a um estado de apatia, desinteresse, desânimo e uma espécie de pessimismo em relação à vida.

Organicamente, no esgotamento, há alterações significativas nas glândulas supra-renais (de adrenalina e cortisona), há dificuldades no controle da pressão arterial, há alterações do ritmo cardíaco, alterações no sistema imunológico, no controle dos níveis de glicose do sangue, entre muitas outras. Psiquicamente a ansiedade crônica ou esgotamento leva à um estado de apatia, desinteresse, desânimo e uma espécie de pessimismo em relação à vida. Se hoje sabemos muito sobre o estresse e a ansiedade, tanto do ponto de vista comportamental quanto neuroquímico, pouco sabemos ainda sobre seu aspecto principal ou primordial.

Estamos falando sobre esse tal estímulo desencadeador. É por aí onde tudo começa, ou seja, todas as reações orgânicas, as atitudes, emoções, comportamentos, alterações químicas fisiológicas, etc e tal, começam sempre à partir do tal estímulo.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático
Conceituar e discutir o Transtorno por Estresse Pós-Traumático (TEPT) é bastante atraente para o estudo antropológico e sociológico do mundo contemporâneo. Esse é, talvez, o maior prejuízo não-material que a violência da sociedade moderna impõe ao cidadão. A pessoa vítima de um assalto, por exemplo, pode amargar um prejuízo emocional muito maior e mais durável do que a querela material com que todos se preocupam. E esses prejuízos emocionais não aparecem nas estatísticas políticas, sociais ou policiais.

A diferença entre o Transtorno por Estresse Pós-Traumático e o Transtorno de Adaptação se resume a dois aspectos:

1. – Quanto ao tipo de estressor. O Transtorno de Adaptação ou de Ajustamento é uma resposta emocional aos estressores mais comuns do cotidiano, enquanto no Transtorno por Estresse Pós-Traumático o estressor deve ser extremamente intenso, deve ter uma natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos submetidos a ele.
2. – Quanto ao tempo da reação. O Transtorno de Adaptação ou de Ajustamento é uma resposta emocional crônica aos estressores que se sucedem no cotidiano, como se fosse uma somatória de várias circunstâncias diante das quais as pessoas vão, paulatinamente, apresentando alterações emocionais; mudança de cidade, mudança de emprego, revés econômico, perda do emprego, etc. No Transtorno por Estresse Pós-Traumático o estressor é único e a reação é aguda, o quadro todo aparece em pouco tempo (dias), imediata ou mediatamente ao estresse vivido.

Quando a mídia noticia a violência do cotidiano, em todas as esferas, há um zelo especial em informar bem sobre os prejuízos diretos da violência, principalmente, sobre os danos físicos e os prejuízos materiais envolvidos nessa comoção da vida moderna. Mas isso não reflete o total dos prejuízos que sofre a pessoa.

Nas últimas décadas tem havido um aumento da prevalência do Transtorno por Estresse Pós-Traumático para a população em geral, com taxas mais altas ainda entre adolescentes e adultos jovens. O aumento da prevalência implica num aumento real da possibilidade de ocorrência de Transtorno por Estresse Pós-Traumático durante o tempo de vida da pessoa.

Ainda que, por definição, a vivência traumática para produzir um Transtorno de Estresse Pós-Traumático se centralize em experiências humanas consideradas “fora do normal”, como por exemplo, combates militares, torturas e desastres naturais, seqüestros, terrorismo, etc, também a agressão urbana cotidiana e desmedida, bem como o diagnóstico de uma doença potencialmente mortal, a ameaça de falência econômica e, conseqüentemente existencial, atualmente também tem sido suficiente agente estressante para produzir reações igualmente traumáticas (DSM-IV).

A busca de objetividade da psiquiatria sobre aquilo que, exatamente, poderia ser considerada uma vivência traumática suficiente para justificar grave estresse, tem sido uma atitude muitas vezes insensata. Seria o medo da morte, o medo da doença, do sofrimento, seria o componente econômico, familiar, social, ocupacional…? Enfim, como e o quê seria, exatamente, um motivo vivencial suficientemente estressante para ocasionar o desenvolvimento do Transtorno por Estresse Pós-Traumático ou mesmo de algum outro transtorno emocional?

Talvez seja o peso da somatória de uma série de estressores não tão grandes mas, em seu conjunto, suficientemente fortes para uma grande solicitação emocional adaptativa. Às vezes tem sido difícil identificar um determinado e específico estressor, dentro da constelação de vivências múltiplas que constituem a experiência da vida moderna, definitivamente associado às manifestações do estresse. Mas isso não quer dizer que teremos de “inventar” uma outra denominação para transtornos emocionais só porque não houve terremoto, guerra ou outra grande catástrofe.

O quadro do Transtorno por Estresse Pós-Traumático revive o antigo problema das relações entre acontecimentos traumáticos da vida e a eclosão de doenças emocionais. Dependendo de cada região ou país do mundo, os agentes causais do Transtorno por Estresse Pós-Traumático têm características e incidências próprias. Em alguns países o terrorismo é uma das principais manifestações da violência que contribui para a patologia pós-traumática, em outras regiões têm sido as catástrofes naturais, as guerras, etc (Medina, 2001). Em nosso caso, parece ser a violência urbana e a insegurança a que se submetem os cidadãos, os principais promotores do Transtorno de Estresse.

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático se diagnostica quando uma pessoa volta a experimentar uma emoção traumática com evocações, lembranças, sonhos, cenas retrospectivas, ou até alucinações perturbadoras e intrusivas, tempos depois da ocorrência de um acontecimento fortemente estressor.

Ao experimentar o traumatismo o paciente costuma apresentar pesadelos e pensamentos invasivos (que independem se sua vontade) muito negativos, pessimistas e trágicos, ao evitar recordações do trauma faz com que ele evite situações relacionadas e afins (sair de casa, falar com estranhos, caminhar no escuro, ficar sozinho, etc). Havendo aumento da excitabilidade, apresentará perturbações do sono, hipervigilância, ansiedade e irritabilidade. Outras respostas emocionais, comumente associadas com tais traumatismos, são o desespero, os sentimentos de culpa por medidas tomadas ou evitadas e angustia.

Até certo ponto, o Transtorno por Estresse poderia ser considerado uma reação normal do organismo à um acontecimento anormal. Nesse caso o “defeito” seria mais do destino que da pessoa. Pensando assim, poderíamos tirar duas conclusões:

a – O trauma estressor é a causa exclusiva do Transtorno por Estresse Pós-Traumático e;
b – Esse estado mórbido pode ocorrer facilmente a qualquer pessoa, pois, de acordo com o conceito do CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), para que um paciente seja classificado como portador de Transtorno De Estresse Pós-Traumático, deve ter vivenciado um estresse de tal magnitude que seria traumático para qualquer pessoa.

Apesar do conceito da CID-10, existe uma grande controvérsia quanto à possibilidade de uma vivência traumática ter como conseqüência, automaticamente, um transtorno emocional. É por isso que as pesquisas atuais estão dando mais importância ao aspecto subjetivo da vivência traumática capaz de produzir o estresse, do que ao estresse, propriamente dito. Os fenômenos psicofisiológicos do estresse são basicamente os mesmos entre as pessoas estressadas mas, diferentemente, as experiências traumáticas vivenciadas por essas pessoas podem ser bem diferentes.

Tendo em vista o fato de que, nem todas as pessoas expostas ao mesmo trauma desenvolvem algum transtorno emocional, podemos afirmar que o acontecimento traumático seria necessário mas não suficiente para o desenvolvimento do Transtorno por Estresse Pós-Traumático. Isso quer dizer que, embora o agente estressor esteja sempre associado ao desenvolvimento do Transtorno por Estresse Pós-Traumático, ele pode não ser o único elemento a contribuir para seu desenvolvimento.

A atual literatura tem sugerido que o desenvolvimento do Transtorno por Estresse Pós-Traumático não depende só da gravidade do trauma em si, parecendo evidente que a sensibilidade afetiva e as experiências subjetivas de cada um são, no mínimo, tão importantes quanto ao trauma em si.

Nos últimos anos, estudos cada vez mais exaustivos do Transtorno por Estresse Pós-Traumático e dos possíveis mecanismos patogênicos envolvidos em sua eclosão, têm revelado um número de agentes estressantes continuamente crescente. Incluem-se, entre esses agentes estressores capazes de desenvolver o Transtorno por Estresse, desde conflitos bélicos, onde se descreveu inicialmente esse transtorno (antiga neurose de guerra), até os desastres naturais ou humanos, passando pela violência urbana, abuso físico ou sexual e as enfermidades ou acidentes com grave risco de vida (veja a página sobre TEPT).

Ballone GJ Esgotamento – in. PsiqWeb, Internet – disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005

Anúncios