Tratamentos para pedófilos sem garantias de sucesso

Tratamentos para pedófilos sem garantias de sucesso


PATRÍCIA JESUS

Agressores sexuais quase nunca procuram ajuda O abuso sexual de menores é um crime cada vez mais no centro das preocupações da sociedade. Odiados pelo cidadão comum, os pedófilos são também doentes, que chegam a acreditar que estão a fazer bem às crianças. A medicina já oferece tratamentos que, embora não tenham eficácia garantida, ajudam a diminuir a reincidência.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a pedofilia como um desvio da sexualidade caracterizado pela atracção de um adulto por crianças que ainda não atingiram a puberdade.

Manuel Coutinho, do Instituto de Apoio à Crianças (IAC), salienta que nem todos os agressores sexuais de menores são pedófilos e que nem todos os pedófilos cometem crimes. O psicólogo clínico usa o exemplo de um cleptomaníaco, uma pessoa com a obsessão de roubar: “Se nunca chegar a roubar não comete nenhum crime; o mesmo se passa com um pedófilo, se não abusar sexualmente de crianças.” O que é criminalizado é o abuso sexual e não a doença, resume.

No entanto, os pedófilos raramente procuram ajuda se não forem levados a isso. Só o fazem quando se sentem pressionados, ou pela família ou porque já foram identificados pelas autoridades. Não procuram tratamento porque têm consciência de que “é um dos crimes mais odiados pela população em geral e a população prisional” e porque “criam mecanismos de auto-ilusão”, explica o sexólogo e psiquiatra Afonso de Albuquerque: “Os pedófilos constroem uma auto- -imagem de pessoas que têm uma boa relação com as crianças.” Muitos, mesmo depois de serem denunciados e punidos continuam a acreditar que estavam a fazer bem às crianças.

“Sabemos muito pouco sobre estas perturbações”, reconhece o sexólogo, antigo director do Serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos. Nem se sabe ao certo o porquê, apesar de existirem várias teorias.

Manuel Coutinho salienta que nem todas as crianças abusadas se tornam adultos abusadores, mas que muitos pedófilos foram vítimas de abuso sexual na infância. Uma teoria que, segundo Afonso de Albuquerque, tem vindo a ser refutada porque a maior parte dos casos estudados revela que a percentagem de agressores que foram vítimas não é tão elevada como se pensava anteriormente. No entanto, há casos em que essa ligação parece evidente, como o de Carlos Silvino, conhecido como “Bibi”, que é seguido por Afonso de Albuquerque. O psiquiatra alerta ainda para a importância dos percursos individuais e de outros factores, como um desenvolvimento sexual anómalo. “Há também teorias que defendem que o pedófilo já nasce assim”, diz o sexólogo. “Não sabemos, é uma área ainda pouco estudada.”

Tratamentos

Apesar do conhecimento deficiente sobre como funciona esta perturbação, tem havido desenvolvimentos no capítulo dos tratamentos. A administração de psicofármacos é um deles. Os antidepressivos actuam sobre os traços obsessivos da personalidade do pedófilo – a repetição de ideias de forma sistemática e carácter compulsivo, ajudando a controlar a atracção anómala por crianças, que está presente na mente do pedófilo 24 horas por dia.

Além da abordagem psicofarmacológica, há a castração química: a administração de hormonas que vão inibir a produção da hormona sexual masculina, a testosterona, e suprimir o desejo sexual.

Na abordagem psicoterapêutica tenta-se mudar a preferência sexual por crianças, diz Afonso de Albuquerque. Manuel Coutinho explica que, na psicoterapia, pretende-se que a pessoa compreenda o problema, o processo que a conduziu até ali, que há uma grande diferença entre a sexualidade adulta e a infantil e que compreenda o dano infligido às crianças.

Na experiência do sexólogo, o tratamento tem mais sucesso se as três intervenções forem utilizadas em conjunto. “Mas cada caso é um caso.” Os resultados medem-se pela taxa de reincidência. Em estudos em que se comparam dois grupos de presos, um com acompanhamento depois de sair da prisão e outro sem acesso a tratamentos, o segundo grupo registou uma taxa de reincidência superior.

Manuel Coutinho é menos optimista quanto à eficácia dos tratamentos. Considera que a psicoterapia e a psicofarmacologia podem ajudar na contenção social, mas acredita que é quase impossível mudar a preferência sexual de um pedófilo. Para o psicólogo clínico, os Estados deviam desenvolver bases de dados confidenciais, para que as polícias nacionais e internacionais possam seguir os movimentos de pessoas com historial de agressões sexuais a crianças. E defende que as organizações que trabalham com crianças deviam exigir o registo criminal dos trabalhadores.

Fonte: http://dn.sapo.pt/2008/04/27/sociedade/tratamentos_para_pedofilos_garantias.html

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