Dilacerado!

“Eu tinha a sensação de que na memória liberada dos ressentimentos e dos traumas, o tempo cronológico não tem existência. Que as despedidas não são quebras ou interrupções traumáticas de experiências comuns, mas promessas de novos reencontros. Se partir é dividir-se, sentir-se partido, dilacerado entre o que vai e o que fica, a memória é uma dimensão capaz de reconciliar este eu dividido, pois ela, quando livre, aponta permanências, outros possíveis de uma esperança que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim… A memória livra o momento da partida de sua dimensão de evento irreversível.
Para o que vai e para o que fica o elo da memória desfaz o trauma da partida, mas isto só pode ser compreendido por pessoas que têm em comum uma profunda afetividade.” (DECCA, p. 115)

[“Ensaio sobre a memória anarquista: a história como ficção coletiva” – Edgar Salvadori de Decca, em História Oral, 2, 1999, p. 111-134].

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