‘Pouco caso?’ (001)

(Quem escreve treina. Esse é o primeiro da série de textos com a intenção de escrever bem um dia, quero ser colunista de um jornal de circulação nacional. Bem, sejam felizes nessa viagem.)

 “Nem quero discutir aquelas páginas de nossa vida que cansei de folhar e de escorregar meus dedos como que em sua pele.

Nem quero mais aquele sorriso mal dado, aquele olhar de quem brinca com perigo, aquele jeito que me pega no colo de quem nem preciso.

Quero construir lembranças com você!

E que por sinal, nem esperava tanto. Sim construir horas de felicidade em minutos de proximidade, momentos de desordem no país dos porcos direitistas, quero causar revoluções nesses seres que habitam em mim!

Quero todos esses finais chorosos de novelas vulgares da rede globo, quero aquele calor pegando no meu corpo e saindo fumaças coloridas como as luzes de natal.

É, dias de outubro, o natal chegando. Esses dias inteiros e engraçados, de chuva e sol, correndo como muleque na rua, lembrando todos os dias aquela cosquinha dos seus lábios em meus ouvidos.

Será que ainda sonho pequeno, será que perdi minhas partes de homem, meus desejos de casar e ter meus 10 filhos com todas mulheres que passarem pela minha vida?

E eu aqui, nem digo do descompasso, nem de passar os dias sozinho cuidando de todos sinaizinhos no meu corpo… O que me doia era esse distanciamento dos meus amanhãs. Ninguém sabe, nunca mesmo aconteceu o amanhã. Era sempre hoje, era bem assim. O futuro era só representação do quem nem existe.

Eu dizia tudo isso praquela mulhé vesga-manca-banguela que me apaixonei. Suas pernas magrelas, suas mãos amarelas e seu corpo ninfomaníaco que me fizeram pensar nessas frases soltas às duas da manhã de um domingo.

Foi pra ela que apontei para a imensidão dos céus, e ficou olhando apenas para os meus dedos; foi pra ela que estendi minha mão amiga, e ela disse que só encontrava uma no final de seu próprio braço.

Quando esqueci de te esquecer, era ela que não estava nem aí, que nem queria andar na minha belina azul ano 73 para ir na festa junina da escolinha no final da minha rua. Ela nunca nem entendeu que quando leio meus livros do Foucault eu fico coçando minha cabeça pensando nas brigas que são da família dela, não minha. Que são as crises de tpm da menstruação dela, não da minha. Sim por que da minha boca também saem palavras amargas de sangue.

(Silêncio)… espera aí. Ops voltei, fui apontar o lápis.

Acho que aí, ela, essa mulhé já havia até morrido. kkkkk. É, acho que morreu.

Hoje é dia 20 de outubro de dois mil… e bem.  Nem importa.

Continuei andando pelas calçadas da minha cidadezinha na noite, no frio, no final das festas fazendo declarações de amor a vodka, aos pirulitos de chiclets e ao buraco da minha porta que nessas horas nunca acerto.

Continuei com a esperança de não decidir meus dias pois me dava medo. Já pensou ter uma vida traçada e sem graça? Para quem já chorou ao ouvir dos miolos que amanhã nem teria graça ao defender aquela dissertação de mestrado de psicologia, ou que a conta de 150 reais da energia venceu semana passada, poderia se prender apenas que… deve deixar o futuro no sei lá.

É, sei lá, deixa tudo para o amanhã que nunca chega e que nem existe. Pelo menos é igual a morte. O corte que não fará diferença pois depois de morto você nem pensa. Nem vive chorando de medo. Nem morre mais.

E viva a morte! É o passo de quem tem sorte.

É o dia que vou parar de enganar você leitor.”

CCSS out 2007

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