Dez melhores começos de livros de todos os tempos (02)

Há na lista grandes autores nacionais, como Machado de Assis e Guimarães Rosa, e seus clássicos, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Grande Sertão: Veredas”, respectivamente. Há autores internacionais indiscutíveis, como John Steinbeck (“As Vinhas da Ira”) e Gabriel García Marquez (“Cem Anos de Solidão”).Mas a seleção abre espaço também para escritores tão diversos quanto Ariano Suassuna (“A Pedra do Reino”), Ellio Vittorini (“Conversa na Sicília”), Vladimir Nabokov (“Lolita”), Gay Talese (“A Mulher do Próximo”) e Marçal Aquino (“Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”). O que pautou a escolha da equipe foi exatamente o que menciona Oz: aquelas primeiras frases que nos conquistaram de tal maneira que não tínhamos como não aceitar o compromisso de seguir adiante.

*TRECHOS

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”

“A Pedra do Reino”
“Para ser mais exato, preciso explicar ainda que meu ‘romance’ é, mais , um Memorial que dirijo à Nação Brasileira, à guisa de defesa e apelo, no terrível processo em que me vejo envolvido. Para que ninguém julgue que sou um impostor vulgar, devo finalmente esclarecer que, infeliz e desgraçado como estou agora, preso aqui nesta velha Cadeia da nossa Vila, sou, nada mais nada menos, do que descendente, em linha masculina e direta, de Dom João Ferreira-Quaderna, mais conhecido como El-Rei Dom João II, O Execrável, homem sertanejo que, há um século, foi Rei da Pedra do Reino, , no Sertão do Pajeú, na fronteira da Paraíba com Pernambuco.”

“A Mulher do Próximo”
“Ela estava nua, deitada de bruços na areia do deserto, com as pernas abertas, os cabelos longos esvoaçando ao vento e a cabeça inclinada para trás, com os olhos fechados. Parecia perdida em seus pensamentos, longe do mundo, reclinada naquela duna varrida pelo vento da Califórnia, perto da fronteira mexicana, adornada com nada mais que sua beleza natural. Não usava jóias, nem flores no cabelo; não havia pegadas na areia, nada datava ou perturbava a perfeição daquela fotografia, exceto os dedos úmidos do garoto de dezessete anos que a segurava e a olhava com desejo e luxúria adolescente.”

“Lolita”
“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”

“O Amor nos Tempos do Cólera”
“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas o recordava sempre do destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino percebeu desde que entrou na casa ainda em penumbra, onde havia acudido de urgência a ocupar-se de um caso que para ele há muito havia deixado de ser urgente. O refugiado antilhano Jerimiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e seu adversário de xadrez mais compassivo, se havia posto a salvo dos tormentos da memória com um defumador de cianureto.”

“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”
“Não adianta explicar. Você não vai entender. Às vezes, como num sonho, vejo o dia da minha morte. É uma coisa meio espírita, um flash. E, embora a mulher não apareça, sei que é por causa dela que estão me matando. E tenho tempo de saber que não me deixa infeliz o desfecho da nossa história. Terá valido a pena”

“Conversa na Sicília”
“Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria.”

Povo prascóvio
“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo como pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram era o demo.

“Grande Sertão: Veredas”
Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente %97 depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?

Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo há fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.”

“As Vinhas da Ira”
“As pessoas deixavam suas casas e aspiravam o ar quente e aguilhoante e enchiam com ele as suas narinas. E as crianças não corriam e não brincavam como fariam depois de uma chuva. Os homens debruçavam-se sobre as suas cercas e olhavam os trigais devastados, agora áridos, de que se viam apenas farpas verdes através da névoa de pó. Os homens estavam silenciosos e imóveis. E as mulheres se acercavam de seus maridos, pesquisando-lhes secretamente o rosto, para ver o quanto os afligia a perda, o quanto estavam vencidos (…) E aí elas perguntavam: “Que vamos fazer?” e os homens respondiam: “Não sei”, e estava tudo bem.”


*COMENTÁRIOS

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. O primeiro parágrafo dá mostras ao leitor da fina ironia que irá acompanhar essa genial obra ao longo de suas páginas. Impossível não ficar imediatamente fisgada por seu estilo e humor, não se interessar por esse narrador que conta sua biografia a partir do túmulo. O sarcasmo de Machado começa antes mesmo da narrativa. Na dedicatória, após a página que traz o título, lê-se: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Imbatível.

Silvana Mascagna, editora


“Conversa na Sicília”, de Elio Vittorini. O início da narrativa é o suficiente para aguçar a curiosidade sobre esse personagem acabrunhado, mas tomado de “furores abstratos”, com “água entrando nos sapatos”. Representante do neorealismo italiano, Vittorini escreveu essa obra em 1938, no momento em que se convertia ao comunismo, desencantado em relação ao fascismo.O protagonista viaja ao interior da Itália e narra um cotidiano de dificuldades vivido pela população. Seu mergulho no universo do “gênero humano perdido” é triste, mas dotado de uma literatura cativante.

Júlio Assis, editor-assistente


“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, de Marçal Aquino. A abertura não apenas anuncia o desenrolar da narrativa (é uma mistura de presságio com flashbacks que só ficará mais clara bem mais à frente), como reflete (e representa) muito bem a chamada “nova literatura brasileira”.Além do mais, não só aguça a curiosidade do leitor para saber quem é a mulher que vale qualquer sacrifício (e até mesmo a morte), como também surpreende por mostrar o autor, mais conhecido pelas narrativas nada românticas, falando de amor. Mas é bom adiantar: não se trata de uma narrativa de amor babaca. É feita de frases curtas, diretas, densas, como Marçal Aquino costuma ser.

Liliane Pelegrini, repórter


“O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel García Márquez. Numa história cheia de reviravoltas, percebe-se a mestria do autor já na primeira frase: uma cena trágica narrada como poesia em prosa. O livro começa com uma morte e fala, sim, de amores impossíveis. Entretanto, o tema não é o amor que desiste, mas aquele capaz de esperar 50 anos para florescer. Nas 400 páginas seguintes, presenteia-nos com uma lição de perseverança e amor. Desnecessário dizer que o romance é belíssimo e o final, surpreendente.Marcelo Fiuza, redator


“A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna. Logo na terceira página o personagem principal, Quaderna, misto também de criador-narrador, conta aquela que seria a única epopéia legitimamente brasileira. Suassuna sintetiza sua saga literária, reunindo, em um único parágrafo, sua vida imaginativa calcada na realidade, o tom de nobreza emprestado à cultura popular e a interlocução direta com o leitor, nesse caso, testemunha do processo em que Quaderna se vê envolvido. Uma leitura obsessiva e inesquecível.Soraya Belusi, repórter


“Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa. Desconfio de que não exista na literatura nenhum livro com a grandeza de “Grande Sertão”. Guimarães Rosa foi tão grande que, sem querer, acabou gerando um triste paradoxo, um beco sem saída na literatura nacional. Já no primeiro parágrafo no livro de Diadorim, o escritor lança magistralmente o tema que atormentará Riobaldo ao longo de todo o romance: afinal de contas, o diabo existe ou não?João Pombo Barile, redator


“A Mulher do Próximo”, de Gay Talese. Nesta obra- prima do “new journalism”, Talese narra, como se fosse um romance, a história dos costumes sexuais nos EUA, irrompendo na revolução sexual dos anos 60. Como um legítimo praticante do gonzo jornalismo, o próprio autor-narrador é personagem da história contada, vivendo realmente o universo do objeto sobre o qual escreve. Por causa disso, fica ao final do livro completamente nu, literal e figurativamente.Douglas Resende, repórter


“Lolita”, de Vladimir Nabokov. Sensualidade ao mesmo tempo sutil e explícita como só um mestre das letras como Nabokov conseguiria tecer. Em poucas linhas, em períodos curtos, o personagem- narrador deixa claro, logo na abertura do livro, todo o seu desejo por uma mulher ainda menina. Arrebatador.Marcelo Miranda, repórter


“As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck. Duas páginas e meia que Steinbeck usa para apresentar o Oklahoma e o contexto da época, pós-Depressão. Não há menção de Tom Joad, apenas a descrição de um campo devastado. A sensação após ler esse curto primeiro capítulo é de poeira grudada na pele levada por um vento forte e constante, em um calor insuportável, leseira, desesperança.Ricardo Ballarine, colaborador