"Visão a partir de Lugar Nenhum", de Thomas Nagel

Clássico da filosofia contemporânea, “Visão a partir de Lugar Nenhum”, de Thomas Nagel, defende, contra a ciência, a irredutibilidade do dualismo mente-cérebro

Sujeito em primeira pessoa

João de Fernandes Teixeira
especial para a Folha

David Chalmers e Thomas Nagel são os dois filósofos da mente contemporâneos que, remando contra a maré, resolveram defender seriamente o dualismo mente-cérebro. Em “Visão a partir de Lugar Nenhum”, publicado em 1986 e agora traduzido para o público brasileiro, Nagel, 66, aborda uma das questões centrais que motivam sua posição dualista: a irredutibilidade da perspectiva em primeira pessoa para uma perspectiva em terceira pessoa. Em outras palavras, a experiência subjetiva seria irreconciliável com o discurso da ciência, sempre público e em terceira pessoa. A experiência subjetiva é incompatível com a visão científica do mundo, que tem uma perspectiva definida; a visão do sujeito tem a peculiaridade de não estar em nenhum lugar definido, porque nos acompanha e pode estar em todos os lugares. A visão subjetiva é como um olho desencarnado que olha para o mundo, uma visão a partir de lugar nenhum e que, paradoxalmente, poderíamos dizer que está “em toda parte e nenhuma”, lembrando do título de um famoso artigo de Merleau-Ponty.

Ser como um morcego
Logo nos primeiros parágrafos de seu livro o autor nos afirma que seu livro “trata de um único problema: como combinar a perspectiva de uma pessoa particular, inserida no mundo, com uma visão objetiva desse mesmo mundo, em que a própria pessoa e seu ponto de vista estão inclusos” (pág. 1). A tensão entre o subjetivo e o objetivo e a natureza da experiência subjetiva e seu lugar no mundo parecem ser temas recorrentes na obra de Nagel, cujo início pode ser situado em 1974, com a publicação de seu artigo “What Is It like to Be a Bat?” (O Que É Ser como um Morcego?), que o celebrizou nos meios acadêmicos e filosóficos americanos. Nesse artigo ele argumentava em favor da idéia de que nossa linguagem -especialmente a linguagem intersubjetiva da ciência- seria incapaz de captar a natureza última da experiência subjetiva, no caso, o ponto de vista que um morcego tem acerca do mundo. Por mais que estudássemos a fisiologia do olho do morcego, não poderíamos saber o que é ter suas experiências visuais, não poderíamos vivenciá-las ou assumir a perspectiva de mundo do morcego; poderíamos, no máximo, imaginá-las. No nosso caso, deparamos com uma experiência consciente que é imediata, todos sabemos que a temos, mas ela é, ao mesmo tempo, irredutível à linguagem, que, incapaz de descrevê-la plenamente, apenas resvala nela, pois cada um de nós tem uma perspectiva única sobre o mundo.


Como poderíamos descrever o gosto do sal para alguém que nunca o experimentou? No máximo, o que poderíamos dizer é que o gosto do sal é “salgado”


Em nenhum momento Nagel defende um dualismo cartesiano, ou seja, a doutrina que postula a existência de uma substância imaterial diferente do mundo físico. Contudo, no terceiro capítulo, percebemos sua inclinação em favor da chamada teoria do aspecto dual, ou seja, a proposta de um dualismo de propriedades, segundo o qual uma única e mesma porção de matéria, qual seja, o cérebro, pode instanciar propriedades físicas e, além destas, propriedades mentais ou estados subjetivos. No capítulo sobre mente e corpo, em que Nagel expõe a teoria do aspecto dual, encontramos também uma interessante teoria acerca da natureza da identidade pessoal. Trata-se de um ponto de vista bastante original, baseado na proposição “Eu sou meu cérebro”. O cérebro, por ter propriedades físicas e mentais, de acordo com a teoria do aspecto dual, permite conciliar os aspectos interno e externo envolvidos na construção de nossas identidades pessoais. Do ponto de vista externo, ele é garantia de continuidade temporal para minhas experiências subjetivas, mesmo quando estas estão sujeitas a inesperadas interrupções de memória. Do ponto de vista interno, é ele que garante uma referência, mesmo que inescrutável, da idéia de um “eu subjetivo”. “Eu sou meu cérebro” faz com que a sucessão de experiências subjetivas se torne minha -que “pertença” a um eu.

Livre-arbítrio
Os outros capítulos do livro de Nagel podem ser lidos como a continuação desse longo exercício filosófico de mostrar o aspecto irreconciliável das perspectivas subjetiva e objetiva. O autor percorre vários temas filosóficos importantes, como, por exemplo, a questão da natureza do conhecimento, as relações entre pensamento e realidade etc. No capítulo sete é discutida a questão da liberdade humana, ou seja, do livre-arbítrio como base para a moralidade e para a responsabilidade. A liberdade também é considerada a partir de uma duplicidade de perspectivas subjetiva e objetiva, da liberdade (autonomia) própria e da liberdade dos outros (concebida em termos de responsabilidade). O determinismo da ordem natural, enquanto perspectiva objetiva, é apresentado num confronto com a liberdade e autonomia que caracterizam nossa perspectiva acerca do mundo e de nossas ações. Há uma ambigüidade que percorre o texto de Nagel e faz com que o leitor oscile, por vezes, entre o fascínio e o desapontamento. O livro fascina por ser bem escrito, com uma prosa filosófica leve e agradável, e por abordar temas instigantes. Não há dúvida de que a questão da perspectiva de primeira pessoa e da natureza da experiência consciente continua sendo o ponto cego das filosofias da mente materialistas. Estas continuam se valendo de promessas da neurociência -promessas que ainda não foram cumpridas-, o que sugere que problemas como, por exemplo, o da natureza da consciência continuarão por muito tempo sendo o último bastião dos dualistas.

Assimetria
Tampouco podemos duvidar de que a experiência subjetiva nos apresenta aspectos inefáveis, que escapam da teia da linguagem. Como poderíamos, por exemplo, descrever o gosto do sal para alguém que nunca o experimentou? Certamente qualquer descrição seria redundante e, no máximo, o que poderíamos dizer é que o gosto do sal é “salgado”. A descrição aproximada do gosto do sal pressupõe, como pano de fundo, uma experiência comum partilhada por duas pessoas, sem o que ele permaneceria inescrutável -tão inescrutável quanto as experiências subjetivas do morcego.
O desapontamento surge quando consideramos a proposta dualista de Nagel. O aspecto mais problemático do dualismo é o fato de ele ser um programa filosófico sem agenda.
Ou seja, tudo o que o dualista pode fazer é tentar provar a existência de uma assimetria entre o físico e o mental, mesmo que este seja uma propriedade de algumas coisas físicas, como supõe a teoria do aspecto dual. “O mental não é redutível ao físico” -essa seria a única proposição que comporia as teorias dualistas. A mente seria excluída do domínio da ciência e nada poderíamos afirmar acerca da natureza do mental além do fato de ele ser distinto da matéria.


João de Fernandes Teixeira é professor no departamento de filosofia da Universidade Federal de São Carlos e autor de, entre outros livros, “Filosofia e Ciência Cognitiva” (editora Vozes).


Visão a partir de Lugar Nenhum
418 págs., R$ 47,50 de Thomas Nagel. Trad. Silvana Vieira. Ed. Martins Fontes (r. Conselheiro Ramalho, 330/340, CEP 01325-000, SP, tel. 0/xx/11/ 3241-3677).

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3005200413.htm

+ livros

Eduardo Giannetti da Fonseca lembra a influência de Nagel em sua formação e diz que ele pode ajudar os filósofos brasileiros a superarem seu “vício ocupacional”

Humildade analítica, arrogância dialética

Caio Caramico Soares
free-lance para a Folha

Em enquete do caderno Mais! [publicada em 11/4/1999], que pedia a alguns dos principais intelectuais brasileiros que listassem o que seriam para eles os dez mais importantes livros do século 20, Eduardo Giannetti da Fonseca pôs “Visão a partir de Lugar Nenhum”, de Thomas Nagel, no topo, à frente de clássicos como “O Mal-Estar na Civilização”, de Freud, e “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.
Como mostra na entrevista a seguir, os motivos do economista e professor do Ibmec -que fez a revisão técnica da edição brasileira da obra- para essa escolha são muitos.

Por que “Visão a partir de Lugar Nenhum” é o livro mais importante do século 20?
Foi o livro, dentre aqueles editados no século 20, que mais me influenciou, o livro mais importante em minha formação. As questões mais interessantes da epistemologia, da ética, da filosofia da mente, da linguagem, da metafísica, da filosofia política se prestam a uma elucidação a partir desse conflito entre o ponto de vista interno do sujeito e o ponto de vista da objetividade, ou seja, a tentativa de se ver de fora, a partir de um ponto de vista neutro, impessoal.
Acho que ele conseguiu unificar as grandes preocupações da filosofia a partir de um fio subjacente, que é essa dualidade que ele elabora e que lhe permite cortar transversalmente os mais diversos temas. Nagel é um dos autores com os quais, quando o leio, me sinto diminuído, porque ele me parece de uma clareza, consistência, rigor, elegância, que eu jamais vou alcançar, ele realmente me oprime, mas ao mesmo tempo me instiga, me provoca a ser melhor.
Ele me dá essa clara sensação de quanto me falta como pensador e autor. Uma mistura de opressão e provocação intelectual. Acho Nagel o mais importante filósofo vivo hoje no mundo. Na tradição analítica, que é a de Nagel, diferentemente da tradição dialética (mais continental), a questão importa mais do que a história da idéia. Ele, por exemplo, escreveu um livro inteiro de introdução à filosofia [“What Does It All Mean”, lançado no Brasil pela editora Martins Fontes com o título de “Uma Breve Introdução à Filosofia”] sem se referir a nenhum filósofo, porque ele quer mostrar para o estudante a importância do problema filosófico [em si]. Acho essa abordagem magnífica, essa é a maneira de fazer filosofia, senão você descamba para o que é o vício ocupacional do filósofo brasileiro, que é a exposição sedentária de doutrinas alheias, para usar a expressão de Mário de Andrade. O que Nagel faz é o inverso disso. O problema tem precedência sobre a história das idéias.

O sr. diz que o lançamento de “Visão a partir de Lugar Nenhum” pode marcar uma boa oportunidade para “termos uma filosofia mais esclarecida no Brasil”. A seu ver, quais são as principais carências intelectuais nacionais que esse livro pode ajudar a sanar?
Sobretudo uma filosofia que se preocupe mais com problemas do que com reconstruções historiográficas. Também a questão da clareza; o filósofo tem que ser claro e saber convencer quanto à relevância dos problemas que ele traz. Uma coisa que Nagel faz -e que acho que pode inspirar um jovem a se preocupar com filosofia- é mostrar que os problemas da filosofia são pertinentes, são coisas que qualquer pessoa lúcida pode perceber por si mesma e começar a pensar, porque são coisas que importam. Para mim, como estudioso de economia, a filosofia relevante para as ciências é essa [da linha analítica], e não a continental, dialética. E há muita empáfia, muita confusão entre profundidade e obscuridade. Acho que a história da filosofia tem seu papel, é muito importante que seja feita, mas isso é diferente de filosofia propriamente dita, o historiador de idéias quer resgatar o sentido original de uma obra em seu contexto intelectual e prático.
Agora, o que nos falta no Brasil é o filósofo que tenha capacidade de enfrentar problemas filosóficos e de pensar a partir de problemas, e não de uma reconstrução historiográfica.

Como se deu seu encontro com o livro?
Eu estudei filosofia na graduação [Giannetti se formou em ciências sociais e economia na USP], mas em meados dos anos 70, no Brasil, filosofia era sinônimo de filosofia continental européia, franco-germânica. Estudei muito Marx e, para entender Marx, Hegel. Eu era marxista, na minha geração não havia como não ser marxista, todos nós disputávamos para saber qual era o verdadeiro e ortodoxo marxista. Ao ir para a Inglaterra, li três vezes mais filosofia do que economia, mas percebi que, todos os autores que eu tinha estudado aqui na minha juventude, era como se não existissem. A própria Escola de Frankfurt, o objeto de minha grande admiração então, não era lá nem considerada filosofia, mas sim sociologia.
Lá havia uma outra tradição, que eu desconhecia quase por completo, que era a filosofia analítica. Para justificar minha existência acadêmica lá, tive que recomeçar do zero e começar a estudar, aprender e até participar dessa abordagem. Descobri Nagel nessa época, mas o li com mais afinco depois de escrever “Vícios Privados, Benefícios Públicos” (1993). A presença de Nagel já é muito forte em “Auto-Engano” e em “Felicidade” [ambos lançados pela Cia. das Letras].

É correto dizer que Nagel preenche, em seu desenvolvimento intelectual pessoal, um papel estratégico de intermediação entre o rigor argumentativo da filosofia analítica e os grandes temas da tradição crítico-dialética (em que o sr. se criou), até mesmo do romantismo, por exemplo quando ele denuncia os excessos da ciência moderna?
Os filósofos dialéticos, da tradição hegeliana, e o próprio Marx olham para a ciência com uma arrogância, um ar de superioridade, como se os cientistas fossem meros empiristas, positivistas. Hegel, na “Filosofia da Natureza”, se dá ares de que entende mais de física do que Newton. Na tradição analítica, olha-se com humildade para a ciência e busca-se aprender o que a ciência pode oferecer para a reflexão filosófica. O filósofo não se põe num pedestal olhando para os meros cientistas como se fossem ratinhos de laboratório que não sabem muito bem o que estão fazendo e pensando.
Nagel de novo aí tem uma posição muito interessante. Ao mesmo tempo em que respeita enormemente as conquistas do pensamento científico, ele mostra os seus limites, o que nós podemos esperar da ciência. E ele acaba mostrando que as questões que mais nos importam a ciência jamais nos responderá, são as perguntas acerca do sentido, do bem, do que importa. Mas não se coloca naquela posição frankfurtiana de olhar para os cientistas como se fossem bebês incapazes de dar um passo sem tropeçar.

Mas Nagel denuncia o “cientismo”…
Sim, ele critica o cientismo, isto é, transformar a ciência em fé e dogma, a idéia de que a ciência vai dar respostas para as perguntas da filosofia. Eu resumiria a posição de Nagel dizendo que não há nada mais irracional do que ignorar os limites da racionalidade. Há uma interioridade no mental que é diferente da interioridade do cérebro dentro da caixa craniana. E a ciência é constitutivamente incapacitada para lidar com essa interioridade do sujeito. Esse é o irredutível da experiência humana. E ele é o que mais importa, é nesse plano que nossa vida transcorre. Ele dá até um exemplo, em “Uma Breve Introdução à Filosofia”: imagine uma pessoa comendo chocolate -e tudo o que o chocolate significa para ela, em termos de ressonâncias, de memória, de associações subjetivas- e um cientista que queira ter uma “visão científica” do cérebro sob o estímulo do chocolate.
Imagine se um cientista consegue abrir, lamber esse cérebro e sentir o gosto de chocolate; o gosto de chocolate que ele vai sentir não é o mesmo da pessoa, é apenas um gosto de chocolate que o cérebro da pessoa tem enquanto ela como chocolate. E há um poema de um heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos [“Tabacaria”], que diz: “Come chocolates, pequena;/ Come chocolates!/ Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates./(…) Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!”. É exatamente a mesma coisa que Nagel diz!

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3005200415.htm

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