Nietzsche e a Psicologia

“Toda a psicologia se deteve até agora com preconceitos e receios morais: ela não ousou aventurar-se até às profundezas. Ousar conceber a psicologia como morfologia e como teoria da evolução da vontade de poder, tal como eu concebo – ninguem pensou ainda faze-lo, nem de longe: tanto, bem entendido, quanto é permitido ver no que até hoje se escreveu um sintoma do que até agora se silenciou.
A força dos preconceitos morais penetrou profundamente no mundo mais intelectual, aparentemente mais frio, mais livre de pressupostos – e, como é evidente, teve os efeitos mais perniciosos porque o entravou, cegou e desnaturou.
Uma psicofisiologia verdadeira tem que lutar contra as resistências inconscientes no coração do investigador, tem contra ela «o coração»: uma doutrina do condicionamento recíproco dos «bons» e dos «maus» instintos basta já, com a sua imoralidade mais subtil, para angustiar e aborrecer uma consciência ainda forte e corajosa, – e pior ainda quando se trata da doutrina da deduzibilidade de todos os bons instintos dos maus.
Admitindo, porém, que alguém venha a conceber até mesmo os afectos do ódio, da inveja, da cupidez, do desejo de domínio, como afectos essencias à vida, como algo que na economia da vida deve existir fundamental e essencialmente e que, por conseguinte, deve ainda ser intensificado, se se quer intensificar a vida, – esse alguém sofrerá de uma tal orientação do seu juízo como de um enjoo.
E, no entanto, esta hipótese não é, nem de longe, a mais penosa, a mais estranha, neste imenso reino, ainda quase inexplorado, de perigosos conhecimentos: – e há, na verdade, milhares de boas razões para que se mantenha afastado quem – possa fazê-lo! Mas, por outro lado, já que o barco se desviou do seu rumo até aqui, pois bem! cerremos os dentes! sejamos vigilantes! mão firme no leme! – naveguemos em linha recta por sobre a moral, com isso talvez tenhamos de esmagar e pulvirizar o que nos resta de moralidade, aventurando-nos nestas paragens, – mas que importa a nossa pessoa!
Nunca aos olhos de viajantes intrépidos e aventureiros, se revelou mundo mais profundo de conhecimentos: e o psicólogo que assim «faz sacrifícios» – não se trata de sacrifizio dell intellecto, pelo contrario!, – terá pelo menos o direito de pedir em troca que a psicologia seja proclamada de novo rainha das ciências, para cujo serviço a preparação existem todas as outras ciências.
Porque a psicologia tornou a ser a via que conduz aos problemas fundamentais. ”

F. Nietzsche in “Para Além De Bem e MAl”