Olhar e amor
Essa “objetivação!” – o fato de tentar transformar o outro em objeto – que se faz com o olhar tende a ser uma característica de todas as relações efetivas.
Quantas vezes você já sentiu que sua relação mais complicada e conflituosa acontece exatamente com quem você mais gosta? Mas por que é complicada essa relação?
Você quer amar: aí dá presentes, faz poesia, sonha com a outra pessoa. Só que você vai agindo e pensando de tal forma que aos poucos ela se toma objeto para você.
Você quer ser amada: aí vem a sua vez de querer ser acarinhada, receber atenções, ser objeto de atenções.
Aí o nó do conflito entre duas pessoas. Ora uma, ora outra tende a ser transformada em objeto; ao mesmo tempo, nenhuma das duas quer e pode deixar de ser sujeito.
Você já deve estar com uma pergunta na ponta da língua: então não existe o amor?
Quase, diz Sartre.
Para ele, o ato de amor é uma tênue conquista, que se refaz a cada momento.
De um lado, o amor é uma história de respeito à liberdade do outro. De outro lado, é uma busca contínua de fazer respeitar a própria liberdade.
A relação entre pessoas que não consideram essas delicadezas leva Sartre a dizer, pela boca do personagem Garcin:
Vocês se lembram o enxofre, a fogueira, as grelhas.. do inferno? Ah! que brincadeira. Não há necessidade de grelhas: o inferno são os outros! (Foulquié, Pierre. O existencialismo. São Paulo, Difel, 1961, p. 42)
Contudo essa visão pessimista não representa o conjunto da obra do filósofo: foi uma fase.
Sartre percebe que querer ser amado é tentar assimilar a liberdade de outrem, sujeitando-a à própria liberdade. Mas, ao mesmo tempo, ninguém quer ser amado só porque um outro lhe fez um dia uma promessa: “Amo você porque me comprometi e não quero voltar atrás na minha palavra”.
Do mesmo modo, ninguém admite ser verdadeira uma relação semelhante àquela que se teria com aquelas bonecas infláveis que aparecem no cinema. São usadas e depois vão para a caixa. Esvaziadas.
