Fui comparado a uma folha seca jogada ao chão.
Qualquer vento poderia me levar
Sozinho com as costas nuas arrastando pelo caminho.
Se tivesse sorte inteira, de cair da ribanceira
Até poderia voar, mas é azar
Longe se escuta o andar, piso firme, triste pisar
Tão folha, tão fina, tão marrom…
Alguém passou e me chutou
Me desfiz solto, lentamente, sob o chão frio da última chuva de quinta-feira.
Ai que besteira…
Era eu novamente a custear o lado mais pobre em mim
Ficar longe das minhas raízes, as que me deram estas cicatrizes… que valem ouro
Que não seja meu o tesouro, ali o maior amor. Não temo por isso. Folhinha derrete feito sorvete de neve.

Mas que molhe, eu grudo, eu fico dentro do chão. Amo chão.
Mas o que além podia fazer? Do que esperar, e perecer?
Se ainda estou nesse lodo, todo de gente, todo me pisando
“Misfregando”, tateando, “mincostando” nos seus pés suados…
E eu perdendo a chance de escolher vida melhor. Ser folha é agonia.
Ser gente é agonia.
Onde está a alegria, escondida atrás dessa tabuada que se multiplica de lembranças?
desses postes cheios de outono que só iluminam meus defeitos,
as crianças dentro de mim que só querem sonhos satisfeitos…
os traços na estradas que insistem em ser desfeitos.
e eu que quis um dia ser as raízes profundas, ficar bem firme
hoje sou só a folha frágil, pouca, rouca, sacudida de poeira…
Cristian Stassun 2010
