“Critico em particular, elogio em público”

30 de agosto de 2009 | N° 8545

// ENTREVISTA

“Critico em particular, elogio em público”

//

Estudioso e detalhista. Essas são duas características que fazem do técnico Silas, do Avaí, um dos treinadores mais respeitados do Brasil na atualidade.

– Futebol, hoje, 80% é psicologia. É trabalhar a mente do atleta – diz o treinador.

Nesta entrevista, Silas reforça que não temeu ser demitido quando o Avaí estava na lanterna do Brasileiro e fala sobre seu futuro.

Diário Catarinense – Todos os jogadores dizem que o mérito do Avaí é o conjunto. Como você trabalha este aspecto?

Silas – É muito tempo junto com eles. A gente foi buscar a característica de cada jogador para casar uns com os outros. O Marquinhos pensa muito, o Muriqui é muito rápido, o Léo Gago se aproxima da área e chuta forte. Aí você tem o Caio que marca e aparece. Tem o Fabinho Capixaba que marca e aparece, tem o Eltinho que joga, que tem uma boa bola parada, você tem o Emerson que é bom na bola alta. Depois você procura, no pessoal que está de fora, repetir as características. Também estamos tentando aproximar o Fernando Bob do Léo Gago. Ele marca mais que o Léo, mas joga um pouco mais curto e chuta menos que o Léo. Então você precisa instigar ele para chutar de fora da área. Em um dos treinos, disse pra ele: “Quero seis chutes teus no gol”. E fui cobrando. No jogo, sem perceber, ele faz isso.

DC – Você diz que planeja jogo a jogo. Como é feito este estudo?

Silas – Eu, o Paulo Antônio, meu irmão gêmeo, e o Neguinho, assistimos ao jogo juntos. Vemos o nosso jogo, para ver o que não podemos repetir de erro e o que precisamos insistir de acerto. Depois assistimos ao jogo do adversário e tentamos casar os dois times para entrar na cabeça do treinador do outro lado. Se eu fosse o técnico do Flamengo, iria botar o Willians para marcar o Marquinhos ou o Muriqui e aí colocaria o Lenon para marcar o outro. No intervalo do jogo, aqui na Ressacada, eu disse: “Vamos tirar o Willians do jogo”. O estilo dele é nervoso e ele estava mais nervoso que o normal porque estava jogando com a molecada. Então, a responsabilidade caiu em cima dele. Não demorou 10 minutos e o Willians foi expulso. É o quebra-cabeça que faz o treinador ficar de cabelo branco.

DC – Você costuma valorizar os jogadores, tanto titulares quanto os reservas. Acha que é um dos seus pontos positivos?

Silas – Eu aprendi que se critica em particular e que se elogia em público. No jogo com o Atlético-MG eu disse a eles: “Vou lá elogiar vocês porque estava 2 a 0 para o Atlético-MG e a gente empatou. Vou elogiar que nós remontamos o jogo, vou elogiar a parte física, vou dizer que vocês não desistiram até fazer o gol de empate e que quase ganhamos. Agora, aqui dentro, não posso elogiar a falta de concentração”. Em particular, se critica e vai na ferida. Em público, a gente elogia. Acho que é uma psicologia que funciona bem.

DC – Você disse que está se tornando um psicólogo. Já é?

Silas – Estou fazendo o mestrado, agora (risos). Futebol, hoje, 80% é psicologia. É trabalhar a mente do atleta, saber com quem você grita e ele se esconde e com quem você grita e ele rende mais. Saber o jogador que precisa de desafio, como o Marquinhos. “Você tem que ser o melhor do Brasil, você tem que jogar no exterior”. Aí ele compra a ideia e vai. É trabalhando muito tempo no mesmo lugar que você conhece os jogadores. Você sabe a esposa que ajuda, que a família ajuda. Vê que, quando o jogador não está muito bem é porque tem alguma coisa errada. Então você vai conversar com o jogador e ver o que aconteceu. Este trabalho é que ninguém vê, não interessa pra ninguém, mas que é tão importante quanto os noventa minutos do jogo.

DC – Nos momentos difíceis, você acreditou que o time reagiria?

Silas – Eu não pensei que não ia dar certo porque, em qualquer momento que eu saísse do Avaí, eu já ia deixar um trabalho vitorioso. Este pessoal jamais ia esquecer de mim, mesmo se eu tivesse saído no começo do Brasileiro. Então, nunca me preocupou esta questão. Eu sairia se não tivesse sintonia com os jogadores, se você fala uma coisa e o jogador faz outra. Diretor dá palpite como em qualquer outro lugar; uns mais, outros menos. Mas aqui eu decido, errando ou acertando. A diretoria nunca interferiu. E existe esta sintonia entre o treinador e o time.

DC – Qual o teu planejamento para a carreira?

Silas – Se o Avaí conseguir uma classificação para a Copa Sul-Americana, ou alguma coisa mais importante, e o planejamento do clube for como este, não tenho problema em ficar treinando o Avaí. Mas, se isso não acontecer e se sair muito jogador e tivermos que remontar um elenco, de repente é melhor pensar em uma alternativa. Mas, por enquanto, temos que viver intensamente estes quatro meses, porque tem muita coisa para buscar ainda dentro do torneio.

MAURÍCIO FRIGHETTO

Anúncios