“QI” já não pesa tanto na contratação de professores

Universidades avaliam didática em sala e fazem até aula teste

Há uma mudança nas práticas de contratação de professores. Quesitos como didática e desenvoltura em sala de aula passaram a somar mais pontos do que a simples titulação ou a indicação de nomes por colegas. Na esperança de melhorar seu corpo docente algumas IES (Instituições de Ensino Superior) têm ido além do que faziam e passaram a aplicar métodos mais complexos de seleção de professores. Para diferenciar quem tem ou não essas “competências” algumas instituições inovam e chegam até a aplicar aula teste.

A principal razão da mudança é a preocupação com a didática pedagógica utilizada em classe. Foi sob essa óptica que a FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) procurou fazer alterações no cronograma de contratação de seus professores. Desde 2006, a instituição aplica um método diferenciado para escolher os seus futuros docentes. Segundo a secretária-geral da diretoria executiva da instituição, Ana Flávia de Faria Guimarães, o corpo docente da FESPSP era composto por mestres e doutores de excelência, mas a escola sentia necessidade de que eles fossem mais didáticos em sala de aula. Para atingir este objetivo foi preciso tornar mais amplo o processo de seleção dos professores e mais transparente de forma que a indicação, muito utilizada para selecionar candidatos às entrevistas, não fosse fonte única para a escolha dos nomes.

Ana Flávia conta que, a partir desta idéia, a universidade criou um banco de currículos, o que ampliou o leque de profissionais a serem escolhidos, mas ainda faltava melhorar o processo de seleção dos docentes. “Essas percepções nortearam a instituição a criar a metodologia de seleção de professores desde o recebimento dos currículos até uma avaliação precisa da capacidade do candidato em se expressar em sala e repassar o conteúdo de forma eficaz aos alunos”.

Assim que se inscrevem no site da FESPSP os candidatos recebem uma lista de livros que compõe a bibliografia básica considerada fundamental pela instituição, além de informações sobre os objetivos e a missão da universidade. Para Ana Flávia, isso deixa claro ao candidato o que a instituição espera e irá cobrar quando este fizer parte do corpo docente. O coordenador de cada curso é quem dá o segundo passo e seleciona os currículos dos candidatos que mais estejam alinhados à oportunidade. “Nesta etapa, são levados em conta o tempo de magistério, se o professor deu aula no Ensino Médio – quesito bem avaliado porque exige do professor excelente didática – e experiências alheias específicas do ponto de vista pedagógico”, explica ela.

A terceira etapa consiste em avaliar se aquilo que foi observado no currículo funciona na prática. Por isso, a instituição cria uma banca avaliadora que pode ter seis professores ou mais a qual o candidato submeterá uma aula teste de aproximadamente 30 minutos. Fazem parte da banca não só professores da mesma disciplina, como de disciplinas complementares. “Nessa avaliação temos um formulário de observação em que fazemos anotação de desempenho, consideramos tanto questões didático-pedagógicas, como de conteúdo”, conta Ana Flávia.

É curioso que, mesmo sendo uma aula teste, o professor pode interromper e convidar os “alunos” a participar. “Se este for seu método para tornar sua aula mais atraente, nós o deixamos livre para agir. Só não aceitamos o uso de recursos tecnológicos, já que a finalidade aqui é avaliar a desenvoltura do professor em classe”, explica a secretária-geral. Depois de tudo isso, se o professor agradar a comissão, aí sim, é convidado para uma entrevista. Em geral, seguem para esta etapa entre três ou cinco candidatos por vaga. “A entrevista servirá para averiguar o interesse do candidato e sua disponibilidade em trabalhar na instituição. Depois de alguns anos com este novo modelo, posso dizer que ele é um sucesso”.

A preocupação com a didática dos professores em sala de aula também motivou a Faculdade Morais Junior – Mackenzie Rio a adotar um modelo diferenciado de seleção de docentes. Segundo o diretor da faculdade, Cesar Vargas, há quatro anos, quando o método foi implantado, a universidade contava com um corpo docente altamente qualificado em termos de titulação, mas a didática em sala de aula apresentava agluns problemas. “Daí a necessidade de implantar um novo método de seleção em que a titulação contasse pontos, até porque é uma exigência do Ministério da Educação, mas que fosse somada a outros critérios para trazer professores mais completos e preparados para a faculdade”, explica.

No início, a idéia sofreu resistência. Para Vargas, fruto do tradicional medo do ser humano em relação a mudanças. Com o tempo, porém, e os bons resultados obtidos, ele afirma que o método está consolidado. “Hoje, já contratamos mais ou menos 30 docentes pelo novo método, sendo que cerca de 100 foram submetidos ao novo processo de seleção. Todos eles se cadastraram no banco de currículos, passaram por análise do coordenador do curso, entrevista e aula teste. Esta última, com nota mínima a ser atingida. Portanto, etapa excludente do processo de seleção. Posso dizer que depois de termos implantado essa nova metodologia os problemas com a didática pedagógica em sala de aula acabaram”, garante ele.

Didática versus experiência profissional do professor

Além da titulação individual dos professores, algumas universidades que oferecem graduações voltadas ao mercado profissional fazem questão de levar em conta as experiências de mercado dos docentes. É o caso da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Lá, são valorizados professores com bagagem profissional extensa e que tenham experiências bem-sucedidas em sua trajetória. É um engano, porém, acreditar que apenas a experiência profissional é levada em conta na escolha do professor. Na ESPM, assim como para docentes de disciplinas de perfil acadêmico, a didática pedagógica também pesa na avaliação e seleção.

O processo seletivo da ESPM é similar ao das outras universidades já citadas. Como na instituição do Rio de Janeiro, a aula teste é a última fase do processo seletivo. Segundo a coordenadora da área de pessoal da pós-graduação da ESPM e da academia de professores da universidade, Célia Marcondes Ferraz, a aula teste fica para o final como ‘prova de fogo’ para os professores que já demonstraram a que vieram e que realmente têm o perfil alinhado ao da instituição. “A aula teste é a última etapa em que observamos a conduta do professor em sala de aula. No entanto, ainda que ele apresente um bom rendimento, antes de ser incorporado ao corpo docente, ele passa por um período de adaptação na Academia de Professores”, explica a coordenadora.

A Academia de Professores é um centro de apoio docente criado para treinar os recém-chegados a ESPM, bem como, oferecer aprimoramento profissional aos professores que já fazem parte do corpo docente da instituição. Na opinião de Célia, ela é importante não só para trazer o professor para a realidade da instituição, como para manter um padrão de qualidade no ensino que atinja os objetivos da universidade para com seus alunos. “O primeiro módulo da Academia é sobre didática. Partimos do pressuposto que a aula, para ser produtiva, depende da maneira como o professor transmite o conhecimento. A vivência do professor e a maneira como ele conduz a aula fazem toda a diferença.”

Por essa razão, na academia de professores, os docentes são treinados para possibilitar aos alunos quatro momentos: o de vivência, quando o professor expõe um tema e como ele foi trabalhado; o de crítica, em que os alunos verificam a aplicabilidade do que aprendem; a experiência prática, ou seja, a aplicação dos conceitos em exercícios práticos; e o momento é o de ação, em que o aluno, de posse destes conhecimentos, se dirige ao trabalho, faz diagnóstico em empresas e sugere mudanças. “Para conseguir tudo isso, é preciso que o professor tenha uma formação específica neste tipo de didática. É muito fácil para alguém que domina um determinado assunto discorrer sobre um tema ou fazer uma palestra. Agora, é diferente você passar estes conhecimentos para alunos de forma que eles o compreendam e possam aplicá-los”, explica Célia.

Acompanhamento constante

Para os três representantes das universidades citadas, o acompanhamento dos professores é fundamental para o sucesso de um projeto pedagógico. “Não basta mudar a conduta da universidade na seleção, mas oferecer treinamento e acompanhamento para que os professores sintam-se amparados quando tiverem dúvidas. Ao mesmo tempo, isso serve de estímulo para que eles tenham a vontade constante de melhorar seus resultados”, diz Ana Flávia.

Na FESPSP, o GAP (Grupo Acadêmico Pedagógico) é responsável por oferecer apoio aos professores da instituição. O intuito é dialogar muito com os docentes para que eles encontrem no GAP não só uma central de formação, mas de colaboração. “Fora isso, também propomos uma avaliação por parte do coordenador do curso e dos alunos. O objetivo não é criticar o professor, mas direcionar seu aprimoramento. Claro que a avaliação sempre encontra resistências, mas nosso papel como apoiadores pedagógicos é o de justamente avaliar o desempenho do professor, onde ele precisa melhorar e onde ele já é excelente”, explica Ana Flávia.

Os alunos da Faculdade Morais Junior – Mackenzie Rio fazem uma avaliação semestral dos professores, a fim de contar para a universidade de que forma o desempenho dos docentes tem impactado no seu aprendizado. Além disso, o coordenador também promove uma avaliação. “Procuramos fazer uma avaliação semestral dos professores em que o coordenador desempenha um papel fundamental de acompanhar as ações dos docentes e discutir seus resultados”, explica Vargas.

Já na ESPM, o coordenador do curso, além de dar feedback sobre o trabalho dos docentes, tem outro papel fundamental. Segundo Célia, seu trabalho é mais ou menos como o de um coaching. “O coordenador ajuda o professor a ver o que não funcionou em sala de aula. Ele apóia o professor ao passo que sugere alternativas para vencer dificuldades e propor novos conhecimentos,” diz.

Via: Universia

Fonte: http://vidauniversitaria.com.br/blog/?p=11343

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