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Foucault diz: “o autor não existe”. Ou melhor, não existe apesar de existir,
pois
não passa de uma construção política, uma realidade de transação, princípio
de
agrupamento do discurso criado com o objetivo de lhe conferir alguma unidade
e
coerência, de modo a tentar excluir o acaso do contínuo discursivo
(FOUCAULT, OD:29).
Apesar de ser eu a apertar, com os meus próprios dedos, o conjunto de botões
confusamente dispostos sobre a estante em minha frente, apesar de estar
sozinho
enxergando a seqüência de letras, palavras e frases que se organizam e
adquirem sentido na
tela diante de meus olhos, a verdade é que no momento de falar uma voz sem
nome me
precede. Apossando-me da caligrafia de um segurador de penas cujos dedos
eram mais
firmes, o que desejo repetir é que sou apenas mais um elo na cadeia de
raciocínio,
prosseguindo a frase, me alojando nos interstícios de uma continuidade sem
começo nem
fim (FOUCAULT, OD:5). Apesar de ser meu o nome rabiscado na primeira dessas
duzentas
e tantas folhas costuradas, não é de mim que parte o discurso. Eu não passo
de uma estreita
lacuna que permite a sua reemergência, uma fissura na terra que permite ao
contínuo fluxo
de lava brotar por um breve momento na superfície, impressionando-nos com a
beleza de
seu brilho tépido. A rachadura não é o magma, a rachadura não cria o magma,
a rachadura
não o desvela como verdade fundamental. A lava quente tem seus próprios
desígnios, se
movimenta de acordo com sua própria vontade, e flui sob a superfície da
Terra inteira.(agradecimentos da dissertação mestrado UFPR (Direito) Walter Guandalini
Junior) |
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