A entrevista ficou assim Cristian…
Att.
Jonas Felácio
Jornalista responsável
Jornal Alto Vale (02/2007)
1- Como é a sensação de ser aprovado num mestrado aos 22 anos?
Recompensa! Pode-se dizer que fiz uma graduação muito bem feita. Com pesquisa, extensão, publicação de artigos, apresentação em congressos, participação de eventos. Não se atribui algo assim, apenas a alguns meses de trabalho duro, o que foi necessário é claro. Trabalhava com duas lições importantes desde o colégio. Estratégia e tática num projeto de vida bem estruturado. Em longo prazo tinha uma meta bem definida. Em curto prazo estruturava meu currículo, lia muitos livros, fazia cursos, e fazia valer uma frase: “não deixe que a faculdade atrapalhe seus estudos”.
2- Quantas horas você dedicou por dia para estudar para a prova do mestrado?
Olha, não se mede isso em horas. Mas em intensidade. Ler 80 páginas dia as vezes era complicado pra quem tinha aula de manhã, projeto de pesquisa a tarde, trabalhava até as 22:30 na universidade, fazia cursos, era da diretoria de duas entidades (Direitos Humanos e Associação de Psicologia), escrever artigos. Mas as pessoas sabem que com muito tempo sobrando relaxamos e deixamos tudo pra ultima hora. Nós precisamos ficar meio que desesperados, ansiosos, para ser produtivos. É o preço da qualidade e produção. E no mais não é “o quanto” você estuda, mas “o que” você estuda e o quanto você consegue “absorver e aplicar” em algo útil para as suas metas e para essa vida tão curta.
3- Como você faz para conciliar os estudos com outras atividades do dia-a-dia?
Jeitinho brasileiro. Fazer tudo ao mesmo tempo. Falando nisso, me deixe atender o celular aqui, só um minuto. (risos)
4- O que os estudos acrescentaram na sua vida?
Estudar bastante, ler em demasia parece coisa de intelectual. A todos isso parece. Mas quando você é focado, sabe o que você quer da vida, tudo vira motivação, você faz com prazer, o futuro acaba te puxando, e o saber que você adquire, principalmente na Psicologia, se torna muito prático, você usa em seu cotidiano, seus relacionamentos, trabalho, família, e lhe deixa mais feliz. E aliás, você aprende a não estudar demais, apenas o suficiente para o que você quer alcançar. O bom é se soubéssemos que aquelas horas de estudos de trigonometria, química orgânica, acasalamento das libélulas do oceano índico nada serviriam pra sua vida, além da prova do vestibular.
5- Na atualidade muitas pessoas não valorizam os estudos. Como universitário e pesquisador, qual sua opinião sobre o assunto.
Hoje todos são obrigados a se capacitar de alguma forma. O sonho de ter dinheiro ainda faz muito a cabeça das pessoas, como o principal objetivo de vida, muitas vezes mais que os de família, amor e qualidade de vida. Alguns depois que têm dinheiro, estão velhos, cansados ou mesmo não sabem nem o que fazer com ele. Outros suprem todas as necessidades de sua vida com ele e depois entram em depressão, pois nada há mais pra lutar, conquistar e superar. Essa procura é um risco.
As pessoas tem sim valorizado mais estudar, os índices estão aí. Agora quando se fala de pesquisa em universidades, isso complica. Poucos universitários têm noção da importância e da diferença que faz em sala de aula o aluno pesquisador frente ao aluno que só responde presença. As universidades da região ainda tratam a pesquisa como gasto a mais, com desdém, mas acredito que a pesquisa é a principal ferramenta do aluno para as exigências e mobilidade do mercado atual, e para ir além.
6- Porque escolhesse psicologia para estudar?
Nasci dentro de uma banca de jornais, dos 5 aos 12 vendia jornais na sinaleira ali na frente do Cavilha (centro de Rio do Sul), aos 7 anos lia mais de 10 gibis ao dia, depois revistas, depois jornais e depois aos 21 anos cheguei aos 77 livros/ano. Adquiri o gosto pela leitura, poesia, filosofia, não sendo nada mais do que querer conhecer e vivenciar tudo que existe no mundo, e tudo que criamos. Escolher um curso universitário envolve as ditas “influências” de amigos, pais, conhecidos, envolve nossas crenças, a mídia, a imagem que criamos de uma profissão, mas nada mais do que tentar prever uma opção que supra nossos desejos de ser (reconhecimento social), nosso desejos de ter (Retorno financeiro) e de fazer (algo que realmente nos agrade). A psicologia supriu isso em mim. Mas nunca acaba, é constante e permanente. Quem sabe eu ainda largue tudo pra ser um poeta libertino ou ser um andarilho pela velha Europa.
7- Qual a mensagem de incentivo a leitura que você deixa para as pessoas?
Olha, mestrado aos 22 anos não é nada. Tem pessoas que a escola da vida lhes ensinou bem mais coisas pra passar o tempo e ser feliz do que estudar. Respeito quem não escolhe esse caminho. Só convido a conhecer um mundo diferente, a psicologia é fascinante, ela é algo que você utilizada a cada segundo, como o respirar. E se seguirmos e entendermos os seus princípios éticos, socialmente construídos, dela veremos que o bem comum (quase que inatingível) é ainda o respeito e a busca da felicidade em conjunto. Ler é esse compartilhar o que alguém em seu tempo viveu e sentiu, e quis que você sentisse, revivesse, como as aventuras que seu avô viveu com seus amores em carros de mola, com a grande guerra, com as noites enluaradas das décadas de 20 e 30 ao lado das igrejinhas; ou mesmo a dor que seu amigo descobriu ao perder uma mulher; ou ainda a pergunta do nosso povo… quem veio antes o “ovo ou a galinha?” Claro, o ovo. Ninguém na pergunta mencionou que o ovo era de galinha, então o ovo de qualquer animal veio primeiro. (risos) Quem sabe ler é buscar fórmulas de viver com mais intensidade sua vida, e escrever é querer sentir um pouco do que Vargas sentiu ao se assassinar naquele fatídico dia: “Sair da vida para entrar na história”. Que você ao deixar algo aqui na dura terra, seja um pouco mais eterno do que apenas uma ou duas gerações da família que vão lembrar de você e seu nome, antes que suma como poeira ao vento de uma tarde de verão.
