um dia na história da minha vida

 

Teria uma história para contar

A vocês e a um cardápio

De um barzinho qualquer por aí

Dessa cidade e estranho

Coisas do então “Senhor Amor”

Uma leitura banal

A que travava ao tentar descobri-lo no meio do mim

Não aquém amor, uma pessoa ou algo

Sim, o que esse fenômeno da vir a ser, seria

Seria o Deus só, um vinho esquecido numa rolha do carvalho

O momento de gritos numa tarde de sol

Num momento de arrebatamento de janeiro

Uma montanha ao descansar no gelo

Uma casa nos Alpes, um vilarejo italiano

Para nós (quem?)

Um sentimento que se abrevia ao tocar

Olhar, cheirar, poder as coisas

Sentimento seria os sentidos?

Reprimidos nas tapagens das flores

Tatuadas no material que te solve

Pele e sangue quente no frio daqui

Essa viagem que rompe delirante ao sul

Ao ouvir os cantores e os violões sem cordas

A roda de amigos, ares de sublimar

Ou quem sabe você

O carinho de todo o seu falar

Dizer baixinho todo o seu carinho

Aquela velha frase sempre repetida

“Sozinhos no meio da multidão”

Dos consolos de morte, dos jeitos e

Dos humanos pulsantes

Das livrarias pela rua e seus papéis sórdidos

De estórias adormecidas em cama de hotéis iguais

O assalto e o susto de seus pés apertados

O museu mosaico e a imagem que chorava por você

Atrás das costas das cadeiras daquele teatro

O dinheiro, o velho bêbado caído na calçada

Podia ser, tempo esquecido olhando o olhar do povo

Que franzia olhos pelo clarão do céu

Que explodia no crime e na matança do homem Candelária

Essa mulher que soletra seu gozo, seu bingo

Seu bicho que geme ao telefone

De um bordel pequeno de beira de estrada

Dos caminhões e do teatro primeiro

Prisma e papiro de famosos em brilhantina

Corpos e vozes, tortos e algozes

A olhar, o ouro e o luxo das luminárias

Luminosas de rico pilar em discos celestiais

Cúpula de mentira e frieza da catedral

Que seus cátedras vivam o calor do dia de 35 graus

De degraus rastejando pelo portão de suas madeiras

Do peito de sua entrada de graça

Do palácio do “Senhor Amor” de alguns homens

E maiores afrescos e pinturas

No seu de espelhos coloridos

De um artista do pastoreio e de cavaleiros andantes

Brasileiros e viventes em terra sangrenta

De mulheres ociosas e suas vestes sujas

Brigariam ao ver tanta beleza

De que o velho e “Senhor Amor”

Olha para tudo isso e diz

Que é esse viver, que é um reflexo

Desse senhor em frente aos cristais de espelhos

Da vida de um cancioneiro que não interpreta esse rude

Apenas vive e deixa seguir.

 Que as dores do mundo fiquem desertas

Ao ver você passar alcance

O todo amor que existe entre nós.

Inefável e nunca mais direi o que é amor,

Nunca mais complicarei um dia de minha vida,

Sem ao seu lado estar.

Esteja aqui esta noite para me amar.

 

CCSS

18/10/2003